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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Quando for grande quero... saber correr #37

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Tantas foram as vezes que disse e outras que pensei: por 3 ou 4 km não vale a pena suar a camisola, treino de corrida que vale a pena dura uma hora (e outras coisas do género).

 

Longe vão os tempos em que correr 5 ou 6 km me sabia a pouco. Hoje tenho a sensação que tenho feito muita coisa ao contrário.

 

O meu percurso na corrida, mal comparado, ou não, faz-me lembrar a minha infância, aquela vontade desenfreada de crescer, usar os saltos altos da mãe, os colares e os chapéus da avó, de ser crescida depressa. Correr nos últimos 3 anos tem sido isto, uma vontade arrebatadora de fazer grandes distâncias, acumular muitos quilómetros, muitos treinos grandes, muitas provas, muitos desafios.

 

Na verdade foi tudo rápido, muito rápido, porque é possível, porque neste caso bastava mesmo querer e trabalhar (a cabeça e o corpo tanto quanto possível) para isso. Agora a sensação que fica é que não aproveitei cada etapa deste crescimento como deveria.

 

A grande diferença é que quando passas pela infância sem brincar na casinha das bonecas, sem ires ao escorrega, a infância passa e o rabo deixa de caber no escorrega e a altura já não te permite entrar na casinha das bonecas. Na corrida é te permitido (às vezes é mesmo obrigatório) voltar atrás, aprender a desfrutar dos 3 km, das corridas de 30 minutos, mesmo que já tenhas feito provas com 8 horas de duração. É estranho, mas é possível.

 

Não perdi o bichinho das longas distâncias, imagino-me ainda a fazer coisas grandes (e são as que mais me empolgam). Agora sinto-me como diz a música da Mafalda Veiga:

 

"É preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver"

 

Quero correr, quero treinos, quero provas, quero continuar a superar-me, quero tudo a que tenho direito, incluindo os curtos também (nunca fiz um trail com menos de 15km e tenho pena!). Porque é verdade que ando a correr, mas não vou a fugir de nada, nem tenho pressa de chegar a lado nenhum.

 

O objetivo a mais curto prazo é voltar a ser capaz de correr os 10km com vontade, com prazer. Se for para ser com sacrifício, para castigar o corpo, faço já amanhã, mas não é o que quero.

 

Passito a passito, vale a pena pensar nisto!

Ó Zeca… a música aqui é outra! #36

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Há músicas brasileiras que me lembro de ouvir desde sempre, ficam no ouvido e quando tocam fazem o pé pular. Aquele ritmo, aquele jeitinho brasileiro, não tem como não entrar pelos 5 sentidos, lembram praia, calor, chinelo no pé, chôpiiii, é “bão djimais”!

 

No outro dia dei por mim a trautear a música do Zeca Pagodinho “Deixa Vida Me Levar”, para quem quiser ouvir fica o link do youtube:

 

 

 

E ao contrário do que nos acontece muitas vezes quando começamos a analisar as letras das músicas e damos por nós a pensar “esta foi mesmo escrita para mim”, aconteceu-me exatamente o oposto “se tenho deixado a vida me levar tava bem lixada”.

 

Como diz a música “Sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu” mas… também acredito que entre muitas outras coisas recebi a graça de quando “não tenho tudo o que preciso” arregaçar as mangas e correr atrás, em vez de: “com o que tenho vivo de mansinho e lá vou eu”!

 

Esta máxima do “Deixa Vida Me Levar” faz lembrar aquela passagem da Alice no País das Maravilhas:
Gato: "Para onde queres ir?"
Alice: "Eu não sei, estou perdida."
Gato: "Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve."

 

Mas Zeca, hoje e só por hoje eu sei para onde quero ir, o estilo de vida que escolhi e o que já não tem lugar na minha vida, se vou deixar a vida me levar acomodo-me, “é a vidinha!”, e a vidinha é lixada, quero não Zéeeeeca.

 

Então como é afinal? Somos capazes de melhor, verdade?

 

A malta trabalha em desenvolvimento pessoal é muito adepta dos áudio-guias. Em vez de serem “poluídos” com as mensagens ocas da maior parte das músicas comerciais, que dizem eles, entram no nosso subconsciente e moldam-nos o pensamento, ouvem em modo repeat conferências e lições dos gurus das suas áreas de trabalho. Pronto, confesso que ainda não me estreei nesse procedimento, mas para primeiro passo, na minha ótica de não-especialista-de-coisa-nenhuma acredito que uma playlist mais criteriosa já pode ajudar (sim, sabemos que o tipo de música que ouvimos influência o nosso estado de espírito, não é preciso ser especialista).

 

Afinal o que a gente precisa em primeiro lugar é saber o que quer e acreditar que consegue lá chegar, a única coisa que não vale mesmo é deixar a vida nos levar, Zeca!

 

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Dia Especial, num Ano Bestial #35

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E puf… 1 ano passou a correr desde que me meti a escrever para este bogue!

 

Foi um ano e pêras (ou beterrabas?).

 

Bati o meu recorde dos 10 km na prova Monumental em Évora, voltei à prova de Viana do Alentejo, dediquei-me afincadamente às longas distâncias, fiz o trail de Monchique, o trail de Barrancos e os ultra-trails de São Mamede, Mérola e Monsaraz. Participei na organização da 2ª São Silvestre de Évora, das 12 Horas a Correr e do Trail Sem Pavor.

 

Em abril foi-me diagnosticada novamente uma anemia ferropénica grave (já tinha tido em 2015), usei e abusei de todas as mezinhas caseiras e alimentares para me recompor, fui medicada, fiz endoscopia e colonoscopia para procurar causas e nada se encontrou.

 

Tive que abdicar de muita coisa, do ritmo, dos treinos, da companhia da minha tribo, do estilo de vida que tinha por adquirido e da minha forma física. Tive que aguentar muita coisa, o cansaço, a irritabilidade, a frustração de não conseguir nem treinar, nem descansar. Em meados de julho consegui que os valores voltassem a estar dentro dos intervalos.

 

Em maio fiz Évora – Fátima a correr em 4 dias, num exercício que prefiro ainda não adjetivar, mas do qual sinto que só estou a recuperar fisicamente agora, ao fim de 2 meses de muita contenção de treinos.

 

Comecei também a pedalar, a bem do reforço muscular, ainda não muito convencida de que o vá fazer muito regularmente.

 

Deixei o meu trabalho, a instituição à qual estive ligada os últimos 13 anos. Negociei a minha saída de um projeto na área social onde dei sempre o meu melhor e que me realizou porque fui uma voz ativa no seu crescimento e na sua afirmação enquanto referência de âmbito nacional, mas que deixou de me estimular. Aos 37 anos voltei a estudar, com o objetivo firme de mudar para uma área de trabalho completamente diferente: o marketing digital.

 

Foi, em rigor, um ano de emoções fortes, andei umas vezes na crista da onda, outras vezes caí de fronha na areia (auch!), mas estou de pé, pronta para os passos que se seguem. E estou grata, muito grata por tudo e todos os que ao longo deste ano, de forma mais física ou mais simbólica, por gestos e palavras se mantiveram por perto ou chegaram de novo.

 

Ontem fiz os primeiros 5km de treino de corrida contínua desde maio, lembrei-me tanto daquela miúda, mulher, mãe, sedentária que há 3 anos (27.07.2014) saiu de casa para ir fazer a sua primeira caminhada, do entusiasmo com que voltou para casa e a vontade de sair no dia seguinte para caminhar novamente. Deu-me vontade de abraçá-la e sussurrar-lhe ao ouvido “parabéns, muitos parabéns, não tens ainda noção mas eu digo-te foi aqui agora, neste gesto, neste passinho insignificante que iniciaste um dos maiores projetos da tua vida, a tua pequena revolução, que ativaste o teu super-poder: fazer as tuas escolhas.”

 

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Primeiras a acreditar (em mim!) #34

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Sempre fui boa numa coisa: acreditar.

 

Faz hoje 1 ano fotografei o nascer do sol com a convicção de que seria uma memória bonita do dia em que nos sagrariamos campeões europeus de futebol.

 

A vitória não dependia de mim. Dependia de mim a atitude de acreditar que era possível e ficar com o registo do nascer do sol. Fiquei. Está aqui.

 

Nos últimos dias tenho dado por mim mais observadora que o habitual. A reparar nas pessoas com quem me cruzo, nalgumas expressões, semblantes carregados, sorrisos amarelos para chegar a questões filosóficas do género "quando é que terá deixado de acreditar?".

 

É que faz parte da natureza humana. E faz falta para nos mantermos verdadeiramente humanos: acreditar em nós.

 

Quem já não acredita que é capaz, que é possível concretizar, deixou de viver. Deixou-se engolir pelo conformismo e sobrevive esmagado pelo inevitável.

 

É que é preciso coragem para acreditar em nós. Acreditar dá trabalho. É diferente de viver iludido. Acreditar implica investir nesta verdade ainda antes mesmo de ela existir como tal, dar oportunidade, criar condições para que aquilo em que acreditamos se torne realidade.

 

Ainda que não se acredite em tudo, caramba, devia ser proibido deixarmos de acreditar no que é o melhor para nós, na nossa melhor versão - aquela que nos faz felizes e àqueles que verdadeiramente nos amam. Aquela equipa acreditou na vitória, o Ederzito António acreditou no golo. Fomos todos felizes.

 

Sempre fui boa nisto. Acreditar.

 

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A minha receita infalível para ficar em forma! #33

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Como é que fizeste para mudar?

Como é que conseguiste?

Podes ajudar-me?

 

Estas são algumas das perguntas que me fazem quando encontram o meu blogue. E eu sei bem o que é estar “desse” lado, daquele lado em que achamos que estamos na presença de alguém que conseguiu um feito inédito! Uma super pessoa, que com os seus super-poderes ou uma fórmula secreta passou de gordinha a magra e tonificada como que por magia.

 

Então permite-me a desilusão… não sou nada disso. Sou só uma pessoa normal, uma mulher como muitas outras, casada, com dois filhos (4 e 8 anos), o mesmo trabalho dos últimos 13 anos (até há 5 meses, altura em que até isso resolvi mudar!), com ciclos menstruais, apetites vorazes, dias de bom feitio e de mau feitio, sem passado no atletismo ou no fitness. E tal como muitas outras mulheres, há 3 anos dei por mim quase deprimida por me ter deixado chegar àquele “ponto”: GORDA!

 

Outra característica minha na altura (e sempre), para além de gorda: inconformista. Nunca me conformei com a ideia daquele eu que vestia o 42, que olhava de lado para o espelho. Na verdade houve um tempo em que acreditei naquele discurso da inevitabilidade, do género: “o nosso corpo muda tanto”, “isto depois dos 30 é inevitável”, “já estive grávida duas vezes, é natural que o corpo sofra estas alterações”, “sou larga de ossos, nunca vestiria o 36”. Menina, mulher, amiga: falso, falso, falso!!!

 

Uma resposta breve para as questões do início:

 

Como é que fizeste para mudar?

Não fiz. Fui fazendo. E ainda faço, todos os dias. Não há receitas infalíveis, nem fórmulas milagrosas. Mas há um comprimido que podes tomar: Fordevon. Conheces? Também conhecido por FOrça DE VONtade. A força de vontade não está sempre disponível, mas temos de contrariar a falta da força de vontade e dar-lhe uma hipótese de crescer e quando os resultados começam a aparecer, ela multiplica-se. Se for preciso procura ajuda para comer melhor e para te começares a mexer.

 

Como é que conseguiste?

Não consegui. Fui conseguindo. E vou conseguindo todos os dias. Procurei regrar-me a comer e a treinar. Treinar pelo menos 3 vezes por semana e nunca estar 3 dias sem correr. Mas comecei por caminhar e sempre com um objetivo: isto tem que me dar algum gozo, porque se começa a ser só sofrimento, acaba depressa… Provavelmente ser teimosinha, ter um espírito competitivo, e procurar sempre superar-me acabou por me dar uma ajudinha!

 

Podes ajudar-me?
Posso claro! Por isso é que comecei este projeto, este blogue Um Passo Nunca Vem Só. Para que o possas ler, para que possas acompanhar o meu percurso e perceber que não fiz nada que tu não consigas. Podes fazer-me perguntas, tentarei responder.
Mas se me permites vou recomendar-te a pessoa ideal para te ajudar: TU!

Questiona-te! O que é que tu queres? O que é que te está a impedir de alcançar o teu objetivo? O que é que tu podes fazer hoje para ficares mais próximo deste objetivo? Depois de responderes, começa. Não é amanhã, é hoje. Começa agora e não pares durante os próximos 66 dias de fazer este exercício e de o praticar. Dizem os entendidos que é tudo o que precisamos: 66 dias para instalar o hábito.

 

Para terminar vou deixar só mais uma sugestão: durante este 66 dias proíbe-te de dizer “eu não consigo”. Não TE limites. Podes ainda não ter lá chegado, ainda não ter conseguido, mas é muito diferente de te boicotares e quereres fazer-te crer que não és capaz: acredita, faz isso por ti

Falha o plano A? O alfabeto é grande à bruta… #32

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O plano A era correr para todo o sempre sem nenhum contratempo, que tal? Era bom, mas é utópico.

 

Contratempo nº 1 uma amiga indesejada ANNE MIA, também conhecida por deficiência de ferro no organismo. Há muitas variantes, muitas causas, muitas intensidades. Os meus resultados são… assustadores. Reservas de ferro quase inexistentes, tudo o que é indicadores bem cá para baixo e de acordo com o médico necessidade de abrandar o ritmo da atividade desportiva.

 

Necessidade de ativar o plano B. Negociei uma dose cavalar de ferro até estar concluído o desafio Évora – Fátima a correr, mediante o compromisso de reduzir as distâncias e o número de treinos após esta data e até estar o diagnóstico devidamente concluído e os níveis dentro do aceitável.

 

Passados que estão 20 dias da chegada a Fátima, ainda não consigo correr. A única tentativa que fiz foi bem esclarecedora do excesso que aquelas 4 maratonas consecutivas representaram para este corpo mal preparado.

 

Necessidade de ativar o plano C. Caminhadas e rolos (bicicleta estática) pareciam ser boas opções para efeitos de recuperação ativa. A primeira tentativa de caminhada (vá, em ritmo passeio no campo) correu bem, mas as duas seguintes (mais ativas) resultam numa moinha na anca e dores absurdas nos tendões de aquiles. As mesmas dores que senti quando tentei correr 11 dias após o regresso de Fátima. A bicicleta estática, no quintal lá de casa… cortem-me os pulsos! Não tenho mesmo paciência nem feitio para estar a olhar para o vazio, mesmo que seja por meia hora.

 

Eis que chegámos ao atual plano D:

- Fazer rolos com companhia/distração, pode ser? Ok. Vamos então até ao Évora Bike Box. Com banda cardíaca metida e em frente ao programa (eu cá adoro jogar Wii, logo achei aquilo o máximo!). Percurso sem grandes subidas, o objetivo é trabalhar as pernas, reforço muscular, dar uso às articulações sem impacto e exercício aeróbico. Posso sempre combinar com as amigas da roda fina um treino, se elas não puderem tenho lá o Gil Santos para me aturar.

 

- Fazer bicicleta ao ar livre. Ok! O objetivo é o reforço muscular, portanto vamos de BTT que até gera maior atrito e tenho mesmo que puxar pela pernoca. Posso sempre acompanhar uns treinos longos dos amigos corredores (e faço umas piscinas para trás e para a frente para meter mais uns km).

 

- Massagens de recuperação. Ok. Programa de massagem de recuperação ativado. Depois de alinhada a estrutura no osteopata, é preciso recuperar os músculos/tendões até que a inflamação desapareça por completo. A Rita no Equilibrium Centro Terapêutico vai tratar dessa matéria.

 

Junto a isto uma alimentação rica em ferro (juro-vos que já deito beterraba & companhia pelos olhos!) e voilá aguardo por melhores dias.

 

Isto para quem correr 3 dias por semana já era tão certinho como beber água tem sido uma adaptação e peras! Sem dramas, sem autocomiseração. As coisas são como são e nada acontece por acaso.

 

Se tiverem que vir os planos E F G H, pois que venham que o alfabeto é grande à bruta.

 

Se antes estava tudo a “correr” bem, agora está tudo “sobre rodas” e amanhã… quando amanhã chegar logo se vê porque de uma coisa tenho a certeza: um passo nunca vem só.

Évora - Fátima a correr, fica tudo por dizer... #31

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Passou uma semana. Gostava de poder contar como foi o nosso desafio a correr entre Évora e Fátima de 9 a 12 de maio, num total de mais de 170 km, mas não posso.

 

Não que alguém me tenha proibido ou que me sinta incapaz de escrever detalhadamente sobre os factos de cada um dos dias. Sei de cor os percursos, o que comi e bebi, o que vesti, as vezes que me encharquei até aos ossos, os palavrões que gritei, as dores que suportei, as vezes que chamei pela minha mãe, que me lembrei dos meus filhos, as orações que repeti até à exaustão, as gargalhadas que dei, as vezes que agradeci poder estar ali, as palavras que escutei e os abraços que recebi, até sei de cor o que pensei e os erros que cometi. Simplesmente as palavras descritivas dos factos nunca fariam justiça ao que realmente foi vivido por cada um de nós.

 

Cada uma das 6 pessoas que fez este caminho terá uma versão muito própria, com um tronco comum: o desafio foi lançado há quase dois anos e foi a oportunidade de nos submetermos a um exercício de superação individual que nos motivou a todos, sem exceção, reforçada pelo simbolismo da vinda do Papa Francisco a Portugal, conferindo-lhe um carater único e irrepetível.

 

Não somos super-atletas, nem os maiores, nem os melhores, muito menos os únicos capazes do que quer que seja. Temos medo do que pode correr menos bem, e há sempre coisas que correm menos bem, não gostamos de falhar, e há sempre falhas mas, por princípio, propomo-nos a conseguir: acreditamos, sempre.

 

Como a sorte protege os audazes, tivemos a sorte de encontrar as pessoas certas umas para as outras, dos que iam correr (eu, a Rita, a Ana, o Zé Mateus, o Zé Luís e o João), aos que iam apoiar (as inexcedíveis Elsa e a Margarida), ficou claro que nada acontece por acaso.

 

O meu corpo habituado a correr nos últimos 3 anos, não estava treinado para este nível de exigência. Foram quatro etapas (48 km + 45 km + 45 km + 36 km) que feitas de forma isolada para quem já tenha corrido uma maratona de estrada não representam nenhum desafio particular, mas que cumpridas em quatro dias consecutivos desafiaram os limites do corpo, mas principalmente os da mente.

 

A dureza dos dias foi sendo minimizada pelas massagens de recuperação, o gelo, os anti-inflamatórios, as palavras de ânimo, o espírito de companheirismo, a alegria dos parceiros de jornada (cada um com as suas mazelas), pelo entusiasmo das famílias e dos amigos que iam acompanhando a nossa aventura, enviado mensagens, telefonando e que a cada palavra de encorajamento faziam renascer a vontade e a esperança de conseguir prosseguir no dia seguinte.

 

Nas etapas finais já a intercalar caminhada com corrida, orientada pela incansável Ana Vieira Lopes, percorri um verdadeiro calvário de dores, lágrimas e orações. Fi-lo por mim, por quem seguia no meu pensamento, por quem me acompanhava, pelos abraços que recebi, pelos olhares doces, pelas palavras de encorajamento e por quem me pedia todos os dias orações, por quem me entregava uma missão (e foram tantas!!!).

 

Descobri que a autocomiseração pode ser o nosso pior inimigo. Descobri que ainda não descobri os meus limites. Descobri que há histórias que não são possíveis de partilhar por palavras, porque são histórias de fé, de emoções, que contadas podem ter mil versões, mas só vividas é que fazem sentido.

 

Humildemente vos digo, não estive à altura do desafio. Desisti mentalmente, e em média, 2 vezes por dia. Mas na verdade, cumpri-o, e isso, nada nem ninguém me tira.

 

Dias menos bons, quem nunca teve que atire a primeira pedra #30

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Ando triste. Não consigo evitar o sentimento, mas a verdade é que faz parte da vida, e também faz falta. Todos temos momentos menos bons, situações que nos afetam e mal de nós se não formos capazes de as aceitar, de as compreender e de tirar alguma lição daí.

 

 

Há mais de um ano (desde que se começou a falar na vinda do Papa a Portugal) que tenho combinado o desafio Évora – Fátima a correr, em 4 etapas, sensivelmente 40 km por dia. A sugestão surgiu num convívio depois de um treino e nem foi preciso falar muito nisso, é claro que o iríamos fazer.

 

 

A ideia seria um grupo pequeno, com uma logística controlada, dormidas e comidas planeadas, um carro de apoio, traçar uma rota (não necessariamente a dos peregrinos) e pormo-nos ao caminho.

 

 

Cada um dos 6 que vai cumprir este desafio treinaria por si. E foi com o desafio de Fátima em mente que desde o Verão passado me comecei a dedicar aos treinos longos e provas de ultradistância (+44 km). E estava a correr tudo como planeado, até ao trail de Monsaraz…

 

 

Depois desta última prova comecei a sentir as pernas presas nos treinos, um cansaço anormal, dores nas pernas, uma respiração estranhamente ofegante e a sentir-me incapaz de fazer um treino curto dentro daquele que era já o meu ritmo normal e de conforto.

 

 

Resolvi então pedir umas análises para confirmar o meu pior receio, a anemia ferropénica que tinha tido em 2015 está de volta. A notícia caiu como uma bomba, quando o médico me pergunta “com estes valores, não tem tonturas e desmaios, consegue correr?”. Por algum motivo, ainda não identificado, praticamente esgotei as minhas reservas de ferro, sem ferro não há produção de glóbulos vermelhos, há menos hemoglobina e falta oxigénio no organismo.

 

 

Claro está que já estou medicada, com uma dose cavalar. Ando aplicadíssima em mezinhas e numa alimentação que seja rica em ferro e vitamina C e ando a treinar menos para evitar desgaste desnecessário de ferro.

 

 

Mas ando triste, porque reconheço que tenho de abdicar de cumprir o desafio. Vou obviamente acompanhar os meus companheiros de aventura, vou obviamente correr com eles alguns quilómetros, pedalar outros talvez, mas vou ter que desistir do plano inicial, pela minha saúde.

 

 

Depois de Fátima, farei mais exames, uma colonoscopia e uma endoscopia, para despistar causas invisíveis para esta situação, porque aparentemente a única coisa que a justifica será o desequilíbrio entre o consumo insuficiente e o desgaste excessivo por via do exercício físico, aliada ao facto de eu por norma não ter estes valores muito elevados.

 

 

Eu que gosto tanto de desafios, passava bem sem este, mas já que cá está resta-me encará-lo como faço com todos os outros e a dar o melhor de mim, porque posso não ter ferro, mas ainda assim não é fácil vergar.

 

Além disso digam lá se das voltas que a vida dá, a volta por cima não é a melhor que ela pode dar? ;)

Entre o céu e a terra… está a nossa força de vontade! #29

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O desafio que nos colocava o Salming Monsaraz Natur Trail 2017 era aliciante “Vem correr entre o céu e a terra”. Tão desafiante que recebeu 1300 inscrições entre caminhada, trail curto (10 km), longo (22km) e ultra (44km).

 

Uma prova fantástica, digna de estar no circuito do Campeonato Nacional de Trail e acredito que lá chegará.

 

A organização foi irrepreensível: os trilhos, as paisagens, as marcações, os voluntários, os abastecimentos, as informações prévias sobre a prova e toda a logística de refeições, alojamentos, banhos. Empenho e dedicação não falta aos Piranhas do Alqueva. Só uma grande equipa, seria capaz de arquitetar um projeto destas dimensões e não deixar que o São Pedro levasse a melhor no dia da prova.

 

Já sobre mim, esta prova dava mais do que uma crónica… duas ou três talvez fossem suficientes. Mas vou resumir!

 

Nada, zero, nicles acontece por acaso: ou fizeste por isso, ou não fizeste por isso

 

Esta semana surgiu-me a oportunidade de frequentar uma formação na KW Flash uma empresa reconhecida no ramo imobiliário com a particularidade de oferecer formação gratuita, mesmo a pessoas que não são do ramo (o meu caso). Uma postura de abertura e partilha pouco comum, mas lógica, na perspetiva de quem acredita que é importante deixar uma marca positiva nas pessoas.

 

Entre as inúmeras coisas interessantes que ouvi nesta formação que basicamente incentiva as pessoas a encetarem um conjunto de ações que as levarão a um elevado nível de desempenho (independentemente da área), a questão de nos assumirmos responsáveis pelo nosso sucesso e focarmo-nos nas variáveis que, de facto dependem de nós, foi providencial. Dizia o formador que perante os desafios que a vida nos coloca há sempre duas posturas possíveis: a vitimização e a responsabilização.

 

Não fosse isto ter-me cá ficado a tilintar na cuca, eu não me tinha levantado da cama no domingo. A minha mais nova fez febre durante a noite, a hora mudou, e entre chamamentos, medicamentos, trocas de roupa, mudanças de cama, consegui deitar-me para dormir, a menos de 2 horas e meia do despertador tocar…

 

Pensei seriamente em deixar-me ficar na cama, a recuperar daquela noite louca. Mas depois comecei a falar comigo “ok, miúda doente e noite mal dormida = variável que tu não controlas, se te quiseres fazer de vítima agarras esse argumento; levantar da cama e tentar completar a prova = variável que tu controlas, se quiseres ser realmente responsável pelo resultado da inscrição nesta prova, deixas-te de merdas e segues para Monsaraz”.

 

A pessoa que se quer responsável, assume as responsabilidades, procura soluções e progride. Foi o que fiz, muni-me dos meus géis energéticos e barritas para o caminho, alimentei-me o melhor que pude antes da prova começar, tomei dois cafés para abrir a pestana e meti-me na frente da partida.

 

Sono, lama, vento, chuva e o homem da marreta às cavalitas

 

Cada trail é uma lição. Monsaraz ofereceu-me um petisco nunca antes provado em trail: corri ininterruptamente e a bom ritmo os primeiros 11 quilómetros de prova e com apenas duas mulheres à minha frente. Adivinhem? As reservas energéticas começaram a desaparecer e mesmo com as barritas e géis, o motor parecia ter gripado.

 

Parecia que estava num videojogo do pacman (e eu não era o pacman!) comecei a ser “papada” pelas minhas colegas e rapidamente passei para 7ª da geral. Até me consigo divertir com este cenário, adoro vê-las passar por mim e pensar “belas pernas, um dia também hei de conseguir correr assim, hoje não é o dia”.

 

Uns quilómetros antes do castelo, que estava ao km 26, levei com o “homem da marreta”, expressão que esta malta da corrida utiliza para se referir àquele momento que achas que já não aguentas mais, as pernas pesam, a cabeça só pensa em desistir. Eu dizia para mim “não me bastava levar com a marreta, senão ainda ter que carregar o gajo às costas”. As costas! Tenho aqui um problema para resolver, talvez com reforço muscular ou com um ajuste diferente na mochila. Lá saquei do dopping, mas como não tinha Brufen em casa, tinha levado Voltaren Retard, mas o retardado do comprimido não me fez nada, nadinha…

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Chego ao castelo com pouco menos de 3 horas e meia de prova e capaz de ficar por ali, estava tão cansada (só pensava no pouco que tinha dormido) e com as costas feitas num oito, estava tanto vento e chuva, os trilhos tão escorregadios, os estradões lavrados cheios de lama, cada vez que levantava um pé parecia que trazia mais 5 quilos em cada perna… enquanto me decidia comia umas batatas fritas, bebia isotónico e lamentava-me por não ter trazido o Brufen. Diz o senhor do bar “isso tenho aqui, quer?”.  O oásis no deserto!

 

Lá tomei o bendito Brufen, e só a esperança cega que aquilo me levasse a dor de costas deu-me novo alento. Fiquei melhor, o suficiente para pensar “sem dores minha menina, só ficas pelo caminho se te deixares dormir em pé!”.

 

Claro está que a pior parte do percurso começava ali, um sobe e desce dos infernos, mas meus amigos, sem dores tudo se sobe e tudo se desce. Uma cabeça no lugar faz milagres. O ânimo foi tanto que já depois do km 35 ainda consegui recuperar uma posição na geral feminina.

 

A maior proeza: não cair uma única vez

A maior alegria: passar a meta em sprint, com força para um salto e um sorriso

A maior satisfação: fazer 6º da geral feminina, a 21 minutos da 3ª classificada

A cereja no topo do bolo: fazer 1º lugar do meu escalão

A maior certeza: só eu sou responsável por mim e onde chego

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Mértola, Mértola, Mértola… cacete! #28

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Aqui a mulher sem plano de treinos, tem o objetivo ambicioso de chegar a Fátima dia 13 de maio com 4 maratonas consecutivas (10, 11, 12 e 13). Acredite-se ou não em milagres o melhor mesmo é ir treinando… vai daí pareceu-me que inscrever-me em tudo o que fosse ultratrail na ordem dos 44 quilómetros haveria de ser um plano de treino interessante. Acredito que os planos de treinos dos meus outros 5 colegas de peregrinação possam ser mais eficazes, este foi o que me fez sentido.

Depois do Trilhos dos Reis (15 janeiro), seguiu-se Mértola (5 março) e vem aí Salming Natur Trail de Monsaraz (26 março), espero que se inscrevam porque Monsaraz sabe receber!

Agora Mértola… ora Mértola tem muito que se lhe diga, mas numa palavra: du-re-za!!!!

Depois de uma semana a esquiar e de mais de 1000 quilómetros de viagem na véspera, eis que chega o dia de ir trilhar por Mértola.

Para começar bem, meto o despertador para as 05h00 e… não tocou!!!! Acordei às 06h10 com uma chamada do JLC, porque era hora de partirmos e nada de sinais da moça. Ia tendo uma paragem cardíaca! Como já tinha o estojo todo pronto de véspera, nem me perguntem como, em 15 minutos estava a sair de casa. Combinámos então que nos encontraríamos em Beja e assim foi (Nossa Senhora de Fátima e os Anjinhos todos protegeram-me naquela viagem alucinante!).

Já no carro com os restantes companheiros tratei dos preparativos finais (protetor solar, make up – importantíssima!!! vaselina nos pés e perneiras de compressão). Tudo a postos para a aventura.

Chegámos a Mértola com tempo para tudo: levantar dorsais, retirar as camadas de roupa desnecessárias, equipar a rigor, foto da praxe, cumprimentos aos companheiros de andanças, dois dedos de conversa, sinal de GPS ativado e pumba: tiro de partida.

Nos primeiros 400 metros o pódio feminino foi meu (ahahaha, a criança que há em mim diverte-se com estes números, não consigo evitar), depois passou a primeira senhora, logo a seguir a nossa ultramratonista Carla André, a terceira companheira e a quarta, a Rita Afonso, a quem acabei por me colar.

Provas houve em que optei por partir mais devagar, esta não foi o caso. Pensei cá para mim “olha nunca rebentei, se for hoje, pode ser que aprenda qualquer coisa”. Aprendi efetivamente muita coisa, mas uma delas é que não rebento assim às boas.

Pouco depois chega Rita Fernandes e a Ana e por ali fomos durante 18 km, sempre juntas: sobe, desce, sobe, desce. Algumas troços com outros companheiros e senti necessidade de me "apresentar" e pedir que não se ofendessem com os palavrões que não evito, até porque li algures que praguejar é analgésico e nessas coisas e tomo logo a dose mais forte! Vistas magníficas para o rio, para a cidade, cheiro a estevas, alguns borrifos de uma chuva que prometeu por duas ou três vezes mas sempre envergonhada.

Ao km 18 andávamos a correr na areia e comecei a quebrar, falta de energia, dor lombar… hora de abrandar o ritmo, deixar as companheiras seguirem, fazer um xixi, tomar um gel e um anti-inflamatório e recuperar algum ânimo.

Juntaram-se a mim 3 companheiros que, entretanto, voltei a deixar para trás porque aproveitaram a entrada numa localidade para ir ao café. Segui por ali fora cruzando-me com alguns idosos que me olhavam com cara de “não é boa da tola”, houve até uma senhora que não se conteve e lá desabafou “ah coitadinha… vai muito atrasada, já passaram há muito tempo”…

E por ali segui, cabeços acima, cabeços abaixo, a pular vedações, sem ver viv’alma, nem um voluntário, nem um fotógrafo e a rezar para não encontrar nenhum javali, tal era a quantidade de bosta que havia por ali… Fiz um vídeo direto para o Facebook e por ali andei entretida a sentir o cheirinho das estevas e a riscar o cromado no matagal, convencida que dentro de metros encontraria o 3º abastecimento. Passaram 500 metros, um quilómetro, um quilómetro e meio e eu já me convencia que só me podia ter enganado no caminho. Com a brincadeira do Facebook devia-me ter escapado alguma sinalética e só podia estar a fazer o percurso de umas das outras provas, nada de sinal do abastecimento! 2 km depois lá estava o dito, ufa… isotónico à vista (pensei eu, mas mal!). Já tinha acabado o isotónico, tal como no abastecimento anterior por onde passaram também os participantes das outras provas, enfim!

Estava portanto neste abastecimento ao km 28, quando avisto as outras 3 companheiras, não muito longe. Resolvi poupar no tempo do abastecimento, nem reabasteci a água, apanhei 3 batatas fritas, uma barritas e pus-me ao caminho para tentar juntar-me a elas. Sobe cabeço, desce cabeço, mato alto demais para avistar quem quer que fosse… Continuei no meu ritmo de conforto, consigo avistá-las e um pouco mais à frente 2 pontos amarelos “tu queres lá ver que são os meus companheiros de viagem????”. Ganhei uma motivação extra com este avistamento e lá vou eu no encalce deles. Encontro o João e o António ambos em mau estado, um a queixar-se das costas, outro a queixar-se da semana de tratamento a cerveja e cozido com fartura. Fizemos uns quilómetros juntos, subimos a encosta do rio até ao alto do cabeço e dizer mal da vida e a praguejar como se não houvesse amanhã. Lá no alto avistámos o próximo abastecimento que, pelas nossas contas estaria a 2 quilómetros, mas as fitas de marcação do percurso indicavam que para lá chegarmos teríamos ainda que dar a volta ao cerro… vamos lá!

Aqui perdemos o João e começámos a fazer contas à vida… onde raio está a tenda do abastecimento que tínhamos avistado??? A água já tinha acabado, os sinais de desidratação já tinham chegado, os quilómetros indicados para o abastecimento já tinham passado 500 metros, 1km, 2km… raios m’a partam!!! Isto não poder ser, será que já levantaram o abastecimento? Será que aquele que avistámos era de outro percurso? Será que estes senhores da organização não sabem tirar medidas? Só podia ser uma brincadeira… de muito mau gosto. Não sei o porquê, mas sei que só o fomos encontrar 3 quilómetros depois do anunciado, ou seja ao km 40, depois de uma mini ravina onde finalmente voltei a juntar-me às companheiras que tinha perdido ao km 18. Parecíamos camelos num oásis e isotónico, mais uma vez, nem vê-lo.

A pergunta que se impunha: “Estamos a quantos quilómetros da meta? A verdade!!!! Por favor só queremos a verdade!!!”, a resposta foi uma mentira, 4 quilómetros que se vieram a revelar quase 7 quilómetros. Esta distância em estrada faz-se bem, mas esta organização conseguiu guardar para após o km 40 uma montanha russa em 6 km: soooooobe, deeeeeeesce, soooooobe, deeeeeesce. Se ainda haviam pernas, a paciência já não morava ali em nenhum de nós.

Voltei a perder o António primeiro, a Rita depois e consegui manter-me com a Ana e com a Rita Fernandes, naquela montanha russa dos infernos. Uma menina tirava fotografias aos mortos vivos que ali chegavam e uns metros à frente oiço uma voz forte a puxar por mim. Só consegui pensar “com tanto quilómetro onde podiam ter metido gente, juntaram a tropa toda aqui”. Só que aquela voz de comando era o meu querido pai, em êxtase por me ver ali chegar pelo meu pé, de braços no ar, com uma laranja descascada na mão e a dizer “queres filha?? olha, não fizeste 44 km, lá na meta dizem que são 46 km”. Acho que me saltou um palavrão a mim e uma gargalhada a ele. Peguei na laranja, acenei à minha mãe que me gritava que tinha perdido mesmo ali a chave do carro e segui o meu caminho a correr pelo alcatrão.

Passado uns metros a minha tropa chegou de carro ao meu lado: a mãe ao volante, o pai, a minha avozinha e minha Maria que gritava “vai mãaaaaeeeeee”. A Rita e a Ana esperavam por mim com a proposta de cruzarmos a meta juntas (faríamos o 4º lugar exe quo). Agradeci-lhes e pedi-lhes que fossem à minha frente eu ia passar a meta logo a seguir, no lugar que me era devido e de mão dada com as minhas Marias (mãe e filha).

No final, 7 horas, 53 minutos e 18 segundos após o tiro de partida, abraços sentidos entre quem acaba de chegar e de quem já esperava há tempo. Cervejas, sorrisos e o 2º lugar no meu escalão. Um pódio que tive o enorme privilégio de partilhar com a Carla André e com a Rita Afonso, gente absolutamente fantástica, de uma simpatia contagiante.

 

Mais uma vez cruzei a meta a correr, com forças para dar colo à minha Maria e levantar umas cervejas, o resto é só a matéria de que se fazem as histórias