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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Talvez nem tudo caia em saco roto #40

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Eu voltaria sempre a Viana do Alentejo, este ano em muito pior forma e sem objetivo de tempo, mas volto ainda mais feliz àquela que foi a minha primeira prova desde que comecei a correr, no próximo dia 24 de Setembro.

 

O motivo? A prova evoluiu, basta olhar para o regulamento, onde homens e mulheres são premiados de igual forma (os primeiros 5 da geral e os primeiros 3 de cada escalão).

 

Nos anos anteriores não foi assim e o ano passado o que se passou foi isto:

 

(TEXTO ESCRITO A 25.09.2016)

Meus Senhores: It's not about the Money

 

Hoje voltei à prova de atletismo de Viana do Alentejo.

 

Os senhores não sabem, mas em 2014 comecei o meu percurso na corrida e a prova de Viana foi a primeira em que participei. Cheguei nos 4 últimos da geral e com a sensação de dever cumprido. A mesma sensação com que terminei a prova de hoje, onde me classifiquei nas 4 primeiras mulheres da geral e nas 4 primeiras mulheres do meu escalão.

 

Não pratico atletismo, a modalidade desportiva. Sou uma corredora de rua. Treino na cidade, sem treinador, sem orientações técnicas, sem grandes regras. Mas isso não me impede de participar nas provas de atletismo que, tal como esta, têm no regulamento a informação de que são competições abertas à participação de atletas federados e não federados em representação de clubes ou individualmente.

 

Neste mesmo regulamento, à semelhança de muitas outras provas de atletismo por este paí­s fora, consta também a informação que "serão atribuídos prémios monetários aos três melhores femininos e aos cinco melhores masculinos, na pauta geral da prova principal, além de prémios pelos recordes do percurso".

 

O fundamento para esta decisão poderá ser razoável, mas tal como aparece descrito, aos olhos do comum dos mortais, parece apenas discriminatória.

 

Explicaram-me um dia que estas diferenças teriam a ver com o facto de haver muito menos mulheres a correr do que homens e, portanto, quando vamos analisar os resultados de um 4º ou 5º lugar masculino e as respetivas diferenças para os primeiros lugares e fazemos o mesmo exercí­cio para o lado feminino percebemos que as discrepâncias são muito maiores nas mulheres. Em resumo: será muito mais fácil para uma mulher conseguir um 4º lugar do que um homem e premiá-los na mesma medida, seria injusto para o homens! Não estou totalmente de acordo, mas não discuto (até porque o mundo está cheio de injustiças muito piores e tudo olha para o lado e assobia, mas aqui a injustiça toca aos homens!).

 

Vou assumir a partir deste ponto que seria uma injustiça eu receber os € que recebeu o 4º classificado da geral masculina. Desconhecendo o investimento que ele fez para o conseguir e conhecendo apenas o investimento que eu fiz. Meus senhores, acreditem, o meu investimento foi grande, à minha dimensção, foi enorme, só por isto: treinei o quanto pude e sempre que pude, neste domingo de manhã deixei em casa marido e filhos, fiz 104 km (ir e vir) no meu carro e uma vez em prova dei o melhor de mim para me classificar o melhor possível.

 

O que ganhei? Um quarto lugar! O que fiz eu? O meu melhor, que alguém entendeu que não seria o suficiente para ganhar um prémio monetário, equivalente ao do elemento masculino que se classificou na mesma posição.

 

Fui correr pelo dinheiro? Não, nem hoje, nem nunca. O que me indigna não é o dinheiro, é a mentalidade, é o princí­pio, é o fundamento: a injustiça para os homens.

 

Mas o que me mais me marcou no dia de hoje, o que me fez refletir, o que me fez dirigir ao Sr. Presidente da Câmara no final da entrega de prémios, foi ver chamarem ao pódio 5 lugares masculinos e 3 lugares femininos. Eu não quero o dinheiro, mas se é de justiça que falamos, não acho justo que ignorem ou desprezem o 4º (que por acaso hoje foi meu) e o 5º lugar feminino. Uma medalha? Um diploma? Uma menção honrosa? Um aperto de mão para a posteridade e uma palmadinha nas costas? Qualquer uma destas soluções me parceria infinitamente mais justa, mais digna do que um pódio masculino com 5 elementos, e um pódio feminino com 3 elementos, como se mais nenhuma mulher ali tivesse corrido.

 

Somos poucas, mas somos cada vez mais, não somos tão rápidas, mas somos cada vez mais. Não somos todos iguais, nem devemos ter essa pretensão. Mas devemos aspirar à igualdade de oportunidades. E eu hoje queria ter tido a oportunidade de ter feito os meus filhos orgulhosos do esforço da mãe, mostrando-lhes a minha fotografia num 4º lugar do pódio, só que não me foi dada essa oportunidade. Disse-me o senhor Presidente, que para o ano já não será assim!...

 

Este ano resta-me a oportunidade de lhes mostrar as fotografias dos dois pódios à geral, uma com 5 homens, outra com 3 mulheres e contar-lhes uma história para adormecer que começa assim: "Em 1967 houve uma mulher que resolveu quebrar as regras e ir correr uma maratona, porque as mulheres não podiam participar nestas provas, só em 1972 é a que adquiriram esse direito e passaram poder ser denominadas de atletas. Hoje em dia já nos deixam correr, mas..."

 

***

Só espero que este ano a prova de Viana do Alentejo se encha de mulheres que gostem de correr, a mais que não seja porque esta alteração merece ser comemorada!

 

Foi por mim que se fez esta mudança? Estou segura que não! Dei algum contributo? Quero acreditar que sim. Como todos nós damos quando em vez de ir falar mal do sistema para o café, nos dirigimos a quem pode, deve e é capaz de receber uma crítica construtiva. E tenho certezas cada vez maiores de que ao contrário do que muitos derrotistas defendem com o discuro do "não vale a pena", talvez nem tudo caia em saco roto.

 

Parabéns, Viana do Alentejo.

Parabéns Atletismo Português.

 

Obrigada Zé, é no exemplo que és épico! #39

Tem 46 anos, é português, a primeira vez que correu uma maratona foi há 4 anos e está neste momento, entre os dias 6 e 10 de setembro, a competir no EPIC 5, um conjunto de 5 provas de triatlo de longa distância que se realizam em 5 ilhas do Hawaii, em 5 dias consecutivos.

 

Em cada um destes dias este homem vai nadar 3,8km, pedalar 180km e correr 42,2km. É a maior aventura em que algum triatleta português jamais entrou e tem... 7 participantes!

 

O que tem o José Massuça de diferente, de especial?

 

Não o conheço, mas admito que tenha um pouco de tudo como muitos de nós, comum dos mortais: família, mulher e filhos, carreira profissional, histórias de infância sobre botas ortopédicas e o facto de ser o gordinho da família. A mentalidade e os hábitos serão certamente diferentes de muitos de nós, esses sim especiais.

 

Os valores dele "Coragem, Espírito de Sacrifí­cio, Foco e Disciplina", dão origem a um discurso positivo e a um método de trabalho (muití­ssimo certamente) ao ponto de não se permitir duvidar que será capaz: "Em Setembro, torno-me o primeiro português a completar um Epic 5: são 211 quilómetros a correr, 900 quilómetros a pedalar e 19 quilómetros a nadar, espalhados por 5 ilhas do Havai, e conseguidos ao longo de 5 dias."

 

As pessoas mais extraordinárias são, porventura, aquelas que têm a coragem para construir a vida que escolheram e não aquela que "lhes calhou".

 

Parabéns José, não acabou a prova, nem o resultado é o mais importante. É no exemplo que és épico.

Para quem quiser saber mais aqui fica o site onde se apresenta e onde consta o relato diário deste desafio: http://josemassuca.com/

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Chegou a hora de fazer… diferente! #38

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Uma paragem de 2 meses para recuperar da anemia e das lesões do desafio de maio serviu-me também para pensar no que viria a seguir.

 

A Rita Barroso, que acompanhou de perto os altos e baixos dos últimos meses, propôs-me aquele que eu acredito que é afinal o meu grande desafio deste ano e que eu aceitei: um plano de treino do Equilibrium Centro Terapêutico!

 

Corro há 3 anos e nunca achei que precisasse de um plano, aliás sempre evitei um compromisso com a corrida que não fosse o gozo que tiro dela e por isso sempre preferi “ir fazendo” do que “ter que fazer”.

 

Embora não tenha ganho muito peso, a verdade é que tenho mais 3 kilos do que gostaria e, pior do que isso, perdi o ritmo e o fôlego: um cágado com asma parece-me uma boa analogia para aquilo que me senti quando voltei a correr.

 

Nesta fase reconheço que um plano me trará vantagens. O objetivo é modesto: recuperar a forma e mais uns “perlimpimpins” (conto depois!)... Quero voltar a fazer trilhos e estrada e quero, principalmente, fazê-los sem me lesionar e a sentir-me bem.

 

O compromisso é, para já, até ao final do ano. 4 meses a seguir uma proposta de treinos, reforço muscular e alimentação…

 

Pode parecer fácil, mas é um desafio gigante. Eu sou uma pessoa determinada mas reconheço, entre as minhas fraquezas, uma dificuldade tremenda em estabelecer rotinas, em fazer as coisas todas direitinhas, by the book. Vão ser 4 meses a lutar contra uma “fura-planos”!

 

E que tal está a correr?

 

O primeiro dia de reforço muscular foi uma anedota… uma tortura chinesa autêntica que deveria ter tido três séries de repetição dos exercícios, não fosse eu ter ficado de língua de fora com a primeira série: para não matar o cágado asmático à primeira, parei por ali.

 

O primeiro treino de corrida também não começou da melhor forma… 1 hora de treino lento… sozinha… um cágado também pode morrer de tédio sabiam? Fiz 45 minutos, auto desculpei-me com o calor e fiquei por ali mesmo.

 

Melhor assim, princípios muito felizes não têm graça nenhuma e não prometem grandes up grades, por isso até acho que começar assim só quer dizer que há muita margem para dias mais felizes: venham eles!

Quando for grande quero... saber correr #37

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Tantas foram as vezes que disse e outras que pensei: por 3 ou 4 km não vale a pena suar a camisola, treino de corrida que vale a pena dura uma hora (e outras coisas do género).

 

Longe vão os tempos em que correr 5 ou 6 km me sabia a pouco. Hoje tenho a sensação que tenho feito muita coisa ao contrário.

 

O meu percurso na corrida, mal comparado, ou não, faz-me lembrar a minha infância, aquela vontade desenfreada de crescer, usar os saltos altos da mãe, os colares e os chapéus da avó, de ser crescida depressa. Correr nos últimos 3 anos tem sido isto, uma vontade arrebatadora de fazer grandes distâncias, acumular muitos quilómetros, muitos treinos grandes, muitas provas, muitos desafios.

 

Na verdade foi tudo rápido, muito rápido, porque é possível, porque neste caso bastava mesmo querer e trabalhar (a cabeça e o corpo tanto quanto possível) para isso. Agora a sensação que fica é que não aproveitei cada etapa deste crescimento como deveria.

 

A grande diferença é que quando passas pela infância sem brincar na casinha das bonecas, sem ires ao escorrega, a infância passa e o rabo deixa de caber no escorrega e a altura já não te permite entrar na casinha das bonecas. Na corrida é te permitido (às vezes é mesmo obrigatório) voltar atrás, aprender a desfrutar dos 3 km, das corridas de 30 minutos, mesmo que já tenhas feito provas com 8 horas de duração. É estranho, mas é possível.

 

Não perdi o bichinho das longas distâncias, imagino-me ainda a fazer coisas grandes (e são as que mais me empolgam). Agora sinto-me como diz a música da Mafalda Veiga:

 

"É preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver"

 

Quero correr, quero treinos, quero provas, quero continuar a superar-me, quero tudo a que tenho direito, incluindo os curtos também (nunca fiz um trail com menos de 15km e tenho pena!). Porque é verdade que ando a correr, mas não vou a fugir de nada, nem tenho pressa de chegar a lado nenhum.

 

O objetivo a mais curto prazo é voltar a ser capaz de correr os 10km com vontade, com prazer. Se for para ser com sacrifício, para castigar o corpo, faço já amanhã, mas não é o que quero.

 

Passito a passito, vale a pena pensar nisto!

Ó Zeca… a música aqui é outra! #36

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Há músicas brasileiras que me lembro de ouvir desde sempre, ficam no ouvido e quando tocam fazem o pé pular. Aquele ritmo, aquele jeitinho brasileiro, não tem como não entrar pelos 5 sentidos, lembram praia, calor, chinelo no pé, chôpiiii, é “bão djimais”!

 

No outro dia dei por mim a trautear a música do Zeca Pagodinho “Deixa Vida Me Levar”, para quem quiser ouvir fica o link do youtube:

 

 

 

E ao contrário do que nos acontece muitas vezes quando começamos a analisar as letras das músicas e damos por nós a pensar “esta foi mesmo escrita para mim”, aconteceu-me exatamente o oposto “se tenho deixado a vida me levar tava bem lixada”.

 

Como diz a música “Sou feliz e agradeço por tudo o que Deus me deu” mas… também acredito que entre muitas outras coisas recebi a graça de quando “não tenho tudo o que preciso” arregaçar as mangas e correr atrás, em vez de: “com o que tenho vivo de mansinho e lá vou eu”!

 

Esta máxima do “Deixa Vida Me Levar” faz lembrar aquela passagem da Alice no País das Maravilhas:
Gato: "Para onde queres ir?"
Alice: "Eu não sei, estou perdida."
Gato: "Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve."

 

Mas Zeca, hoje e só por hoje eu sei para onde quero ir, o estilo de vida que escolhi e o que já não tem lugar na minha vida, se vou deixar a vida me levar acomodo-me, “é a vidinha!”, e a vidinha é lixada, quero não Zéeeeeca.

 

Então como é afinal? Somos capazes de melhor, verdade?

 

A malta trabalha em desenvolvimento pessoal é muito adepta dos áudio-guias. Em vez de serem “poluídos” com as mensagens ocas da maior parte das músicas comerciais, que dizem eles, entram no nosso subconsciente e moldam-nos o pensamento, ouvem em modo repeat conferências e lições dos gurus das suas áreas de trabalho. Pronto, confesso que ainda não me estreei nesse procedimento, mas para primeiro passo, na minha ótica de não-especialista-de-coisa-nenhuma acredito que uma playlist mais criteriosa já pode ajudar (sim, sabemos que o tipo de música que ouvimos influência o nosso estado de espírito, não é preciso ser especialista).

 

Afinal o que a gente precisa em primeiro lugar é saber o que quer e acreditar que consegue lá chegar, a única coisa que não vale mesmo é deixar a vida nos levar, Zeca!

 

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Dia Especial, num Ano Bestial #35

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E puf… 1 ano passou a correr desde que me meti a escrever para este bogue!

 

Foi um ano e pêras (ou beterrabas?).

 

Bati o meu recorde dos 10 km na prova Monumental em Évora, voltei à prova de Viana do Alentejo, dediquei-me afincadamente às longas distâncias, fiz o trail de Monchique, o trail de Barrancos e os ultra-trails de São Mamede, Mérola e Monsaraz. Participei na organização da 2ª São Silvestre de Évora, das 12 Horas a Correr e do Trail Sem Pavor.

 

Em abril foi-me diagnosticada novamente uma anemia ferropénica grave (já tinha tido em 2015), usei e abusei de todas as mezinhas caseiras e alimentares para me recompor, fui medicada, fiz endoscopia e colonoscopia para procurar causas e nada se encontrou.

 

Tive que abdicar de muita coisa, do ritmo, dos treinos, da companhia da minha tribo, do estilo de vida que tinha por adquirido e da minha forma física. Tive que aguentar muita coisa, o cansaço, a irritabilidade, a frustração de não conseguir nem treinar, nem descansar. Em meados de julho consegui que os valores voltassem a estar dentro dos intervalos.

 

Em maio fiz Évora – Fátima a correr em 4 dias, num exercício que prefiro ainda não adjetivar, mas do qual sinto que só estou a recuperar fisicamente agora, ao fim de 2 meses de muita contenção de treinos.

 

Comecei também a pedalar, a bem do reforço muscular, ainda não muito convencida de que o vá fazer muito regularmente.

 

Deixei o meu trabalho, a instituição à qual estive ligada os últimos 13 anos. Negociei a minha saída de um projeto na área social onde dei sempre o meu melhor e que me realizou porque fui uma voz ativa no seu crescimento e na sua afirmação enquanto referência de âmbito nacional, mas que deixou de me estimular. Aos 37 anos voltei a estudar, com o objetivo firme de mudar para uma área de trabalho completamente diferente: o marketing digital.

 

Foi, em rigor, um ano de emoções fortes, andei umas vezes na crista da onda, outras vezes caí de fronha na areia (auch!), mas estou de pé, pronta para os passos que se seguem. E estou grata, muito grata por tudo e todos os que ao longo deste ano, de forma mais física ou mais simbólica, por gestos e palavras se mantiveram por perto ou chegaram de novo.

 

Ontem fiz os primeiros 5km de treino de corrida contínua desde maio, lembrei-me tanto daquela miúda, mulher, mãe, sedentária que há 3 anos (27.07.2014) saiu de casa para ir fazer a sua primeira caminhada, do entusiasmo com que voltou para casa e a vontade de sair no dia seguinte para caminhar novamente. Deu-me vontade de abraçá-la e sussurrar-lhe ao ouvido “parabéns, muitos parabéns, não tens ainda noção mas eu digo-te foi aqui agora, neste gesto, neste passinho insignificante que iniciaste um dos maiores projetos da tua vida, a tua pequena revolução, que ativaste o teu super-poder: fazer as tuas escolhas.”

 

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Primeiras a acreditar (em mim!) #34

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Sempre fui boa numa coisa: acreditar.

 

Faz hoje 1 ano fotografei o nascer do sol com a convicção de que seria uma memória bonita do dia em que nos sagrariamos campeões europeus de futebol.

 

A vitória não dependia de mim. Dependia de mim a atitude de acreditar que era possível e ficar com o registo do nascer do sol. Fiquei. Está aqui.

 

Nos últimos dias tenho dado por mim mais observadora que o habitual. A reparar nas pessoas com quem me cruzo, nalgumas expressões, semblantes carregados, sorrisos amarelos para chegar a questões filosóficas do género "quando é que terá deixado de acreditar?".

 

É que faz parte da natureza humana. E faz falta para nos mantermos verdadeiramente humanos: acreditar em nós.

 

Quem já não acredita que é capaz, que é possível concretizar, deixou de viver. Deixou-se engolir pelo conformismo e sobrevive esmagado pelo inevitável.

 

É que é preciso coragem para acreditar em nós. Acreditar dá trabalho. É diferente de viver iludido. Acreditar implica investir nesta verdade ainda antes mesmo de ela existir como tal, dar oportunidade, criar condições para que aquilo em que acreditamos se torne realidade.

 

Ainda que não se acredite em tudo, caramba, devia ser proibido deixarmos de acreditar no que é o melhor para nós, na nossa melhor versão - aquela que nos faz felizes e àqueles que verdadeiramente nos amam. Aquela equipa acreditou na vitória, o Ederzito António acreditou no golo. Fomos todos felizes.

 

Sempre fui boa nisto. Acreditar.

 

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A minha receita infalível para ficar em forma! #33

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Como é que fizeste para mudar?

Como é que conseguiste?

Podes ajudar-me?

 

Estas são algumas das perguntas que me fazem quando encontram o meu blogue. E eu sei bem o que é estar “desse” lado, daquele lado em que achamos que estamos na presença de alguém que conseguiu um feito inédito! Uma super pessoa, que com os seus super-poderes ou uma fórmula secreta passou de gordinha a magra e tonificada como que por magia.

 

Então permite-me a desilusão… não sou nada disso. Sou só uma pessoa normal, uma mulher como muitas outras, casada, com dois filhos (4 e 8 anos), o mesmo trabalho dos últimos 13 anos (até há 5 meses, altura em que até isso resolvi mudar!), com ciclos menstruais, apetites vorazes, dias de bom feitio e de mau feitio, sem passado no atletismo ou no fitness. E tal como muitas outras mulheres, há 3 anos dei por mim quase deprimida por me ter deixado chegar àquele “ponto”: GORDA!

 

Outra característica minha na altura (e sempre), para além de gorda: inconformista. Nunca me conformei com a ideia daquele eu que vestia o 42, que olhava de lado para o espelho. Na verdade houve um tempo em que acreditei naquele discurso da inevitabilidade, do género: “o nosso corpo muda tanto”, “isto depois dos 30 é inevitável”, “já estive grávida duas vezes, é natural que o corpo sofra estas alterações”, “sou larga de ossos, nunca vestiria o 36”. Menina, mulher, amiga: falso, falso, falso!!!

 

Uma resposta breve para as questões do início:

 

Como é que fizeste para mudar?

Não fiz. Fui fazendo. E ainda faço, todos os dias. Não há receitas infalíveis, nem fórmulas milagrosas. Mas há um comprimido que podes tomar: Fordevon. Conheces? Também conhecido por FOrça DE VONtade. A força de vontade não está sempre disponível, mas temos de contrariar a falta da força de vontade e dar-lhe uma hipótese de crescer e quando os resultados começam a aparecer, ela multiplica-se. Se for preciso procura ajuda para comer melhor e para te começares a mexer.

 

Como é que conseguiste?

Não consegui. Fui conseguindo. E vou conseguindo todos os dias. Procurei regrar-me a comer e a treinar. Treinar pelo menos 3 vezes por semana e nunca estar 3 dias sem correr. Mas comecei por caminhar e sempre com um objetivo: isto tem que me dar algum gozo, porque se começa a ser só sofrimento, acaba depressa… Provavelmente ser teimosinha, ter um espírito competitivo, e procurar sempre superar-me acabou por me dar uma ajudinha!

 

Podes ajudar-me?
Posso claro! Por isso é que comecei este projeto, este blogue Um Passo Nunca Vem Só. Para que o possas ler, para que possas acompanhar o meu percurso e perceber que não fiz nada que tu não consigas. Podes fazer-me perguntas, tentarei responder.
Mas se me permites vou recomendar-te a pessoa ideal para te ajudar: TU!

Questiona-te! O que é que tu queres? O que é que te está a impedir de alcançar o teu objetivo? O que é que tu podes fazer hoje para ficares mais próximo deste objetivo? Depois de responderes, começa. Não é amanhã, é hoje. Começa agora e não pares durante os próximos 66 dias de fazer este exercício e de o praticar. Dizem os entendidos que é tudo o que precisamos: 66 dias para instalar o hábito.

 

Para terminar vou deixar só mais uma sugestão: durante este 66 dias proíbe-te de dizer “eu não consigo”. Não TE limites. Podes ainda não ter lá chegado, ainda não ter conseguido, mas é muito diferente de te boicotares e quereres fazer-te crer que não és capaz: acredita, faz isso por ti

Falha o plano A? O alfabeto é grande à bruta… #32

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O plano A era correr para todo o sempre sem nenhum contratempo, que tal? Era bom, mas é utópico.

 

Contratempo nº 1 uma amiga indesejada ANNE MIA, também conhecida por deficiência de ferro no organismo. Há muitas variantes, muitas causas, muitas intensidades. Os meus resultados são… assustadores. Reservas de ferro quase inexistentes, tudo o que é indicadores bem cá para baixo e de acordo com o médico necessidade de abrandar o ritmo da atividade desportiva.

 

Necessidade de ativar o plano B. Negociei uma dose cavalar de ferro até estar concluído o desafio Évora – Fátima a correr, mediante o compromisso de reduzir as distâncias e o número de treinos após esta data e até estar o diagnóstico devidamente concluído e os níveis dentro do aceitável.

 

Passados que estão 20 dias da chegada a Fátima, ainda não consigo correr. A única tentativa que fiz foi bem esclarecedora do excesso que aquelas 4 maratonas consecutivas representaram para este corpo mal preparado.

 

Necessidade de ativar o plano C. Caminhadas e rolos (bicicleta estática) pareciam ser boas opções para efeitos de recuperação ativa. A primeira tentativa de caminhada (vá, em ritmo passeio no campo) correu bem, mas as duas seguintes (mais ativas) resultam numa moinha na anca e dores absurdas nos tendões de aquiles. As mesmas dores que senti quando tentei correr 11 dias após o regresso de Fátima. A bicicleta estática, no quintal lá de casa… cortem-me os pulsos! Não tenho mesmo paciência nem feitio para estar a olhar para o vazio, mesmo que seja por meia hora.

 

Eis que chegámos ao atual plano D:

- Fazer rolos com companhia/distração, pode ser? Ok. Vamos então até ao Évora Bike Box. Com banda cardíaca metida e em frente ao programa (eu cá adoro jogar Wii, logo achei aquilo o máximo!). Percurso sem grandes subidas, o objetivo é trabalhar as pernas, reforço muscular, dar uso às articulações sem impacto e exercício aeróbico. Posso sempre combinar com as amigas da roda fina um treino, se elas não puderem tenho lá o Gil Santos para me aturar.

 

- Fazer bicicleta ao ar livre. Ok! O objetivo é o reforço muscular, portanto vamos de BTT que até gera maior atrito e tenho mesmo que puxar pela pernoca. Posso sempre acompanhar uns treinos longos dos amigos corredores (e faço umas piscinas para trás e para a frente para meter mais uns km).

 

- Massagens de recuperação. Ok. Programa de massagem de recuperação ativado. Depois de alinhada a estrutura no osteopata, é preciso recuperar os músculos/tendões até que a inflamação desapareça por completo. A Rita no Equilibrium Centro Terapêutico vai tratar dessa matéria.

 

Junto a isto uma alimentação rica em ferro (juro-vos que já deito beterraba & companhia pelos olhos!) e voilá aguardo por melhores dias.

 

Isto para quem correr 3 dias por semana já era tão certinho como beber água tem sido uma adaptação e peras! Sem dramas, sem autocomiseração. As coisas são como são e nada acontece por acaso.

 

Se tiverem que vir os planos E F G H, pois que venham que o alfabeto é grande à bruta.

 

Se antes estava tudo a “correr” bem, agora está tudo “sobre rodas” e amanhã… quando amanhã chegar logo se vê porque de uma coisa tenho a certeza: um passo nunca vem só.

Évora - Fátima a correr, fica tudo por dizer... #31

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Passou uma semana. Gostava de poder contar como foi o nosso desafio a correr entre Évora e Fátima de 9 a 12 de maio, num total de mais de 170 km, mas não posso.

 

Não que alguém me tenha proibido ou que me sinta incapaz de escrever detalhadamente sobre os factos de cada um dos dias. Sei de cor os percursos, o que comi e bebi, o que vesti, as vezes que me encharquei até aos ossos, os palavrões que gritei, as dores que suportei, as vezes que chamei pela minha mãe, que me lembrei dos meus filhos, as orações que repeti até à exaustão, as gargalhadas que dei, as vezes que agradeci poder estar ali, as palavras que escutei e os abraços que recebi, até sei de cor o que pensei e os erros que cometi. Simplesmente as palavras descritivas dos factos nunca fariam justiça ao que realmente foi vivido por cada um de nós.

 

Cada uma das 6 pessoas que fez este caminho terá uma versão muito própria, com um tronco comum: o desafio foi lançado há quase dois anos e foi a oportunidade de nos submetermos a um exercício de superação individual que nos motivou a todos, sem exceção, reforçada pelo simbolismo da vinda do Papa Francisco a Portugal, conferindo-lhe um carater único e irrepetível.

 

Não somos super-atletas, nem os maiores, nem os melhores, muito menos os únicos capazes do que quer que seja. Temos medo do que pode correr menos bem, e há sempre coisas que correm menos bem, não gostamos de falhar, e há sempre falhas mas, por princípio, propomo-nos a conseguir: acreditamos, sempre.

 

Como a sorte protege os audazes, tivemos a sorte de encontrar as pessoas certas umas para as outras, dos que iam correr (eu, a Rita, a Ana, o Zé Mateus, o Zé Luís e o João), aos que iam apoiar (as inexcedíveis Elsa e a Margarida), ficou claro que nada acontece por acaso.

 

O meu corpo habituado a correr nos últimos 3 anos, não estava treinado para este nível de exigência. Foram quatro etapas (48 km + 45 km + 45 km + 36 km) que feitas de forma isolada para quem já tenha corrido uma maratona de estrada não representam nenhum desafio particular, mas que cumpridas em quatro dias consecutivos desafiaram os limites do corpo, mas principalmente os da mente.

 

A dureza dos dias foi sendo minimizada pelas massagens de recuperação, o gelo, os anti-inflamatórios, as palavras de ânimo, o espírito de companheirismo, a alegria dos parceiros de jornada (cada um com as suas mazelas), pelo entusiasmo das famílias e dos amigos que iam acompanhando a nossa aventura, enviado mensagens, telefonando e que a cada palavra de encorajamento faziam renascer a vontade e a esperança de conseguir prosseguir no dia seguinte.

 

Nas etapas finais já a intercalar caminhada com corrida, orientada pela incansável Ana Vieira Lopes, percorri um verdadeiro calvário de dores, lágrimas e orações. Fi-lo por mim, por quem seguia no meu pensamento, por quem me acompanhava, pelos abraços que recebi, pelos olhares doces, pelas palavras de encorajamento e por quem me pedia todos os dias orações, por quem me entregava uma missão (e foram tantas!!!).

 

Descobri que a autocomiseração pode ser o nosso pior inimigo. Descobri que ainda não descobri os meus limites. Descobri que há histórias que não são possíveis de partilhar por palavras, porque são histórias de fé, de emoções, que contadas podem ter mil versões, mas só vividas é que fazem sentido.

 

Humildemente vos digo, não estive à altura do desafio. Desisti mentalmente, e em média, 2 vezes por dia. Mas na verdade, cumpri-o, e isso, nada nem ninguém me tira.