Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Dias menos bons, quem nunca teve que atire a primeira pedra #30

Corrida.jpg

 

Ando triste. Não consigo evitar o sentimento, mas a verdade é que faz parte da vida, e também faz falta. Todos temos momentos menos bons, situações que nos afetam e mal de nós se não formos capazes de as aceitar, de as compreender e de tirar alguma lição daí.

 

 

Há mais de um ano (desde que se começou a falar na vinda do Papa a Portugal) que tenho combinado o desafio Évora – Fátima a correr, em 4 etapas, sensivelmente 40 km por dia. A sugestão surgiu num convívio depois de um treino e nem foi preciso falar muito nisso, é claro que o iríamos fazer.

 

 

A ideia seria um grupo pequeno, com uma logística controlada, dormidas e comidas planeadas, um carro de apoio, traçar uma rota (não necessariamente a dos peregrinos) e pormo-nos ao caminho.

 

 

Cada um dos 6 que vai cumprir este desafio treinaria por si. E foi com o desafio de Fátima em mente que desde o Verão passado me comecei a dedicar aos treinos longos e provas de ultradistância (+44 km). E estava a correr tudo como planeado, até ao trail de Monsaraz…

 

 

Depois desta última prova comecei a sentir as pernas presas nos treinos, um cansaço anormal, dores nas pernas, uma respiração estranhamente ofegante e a sentir-me incapaz de fazer um treino curto dentro daquele que era já o meu ritmo normal e de conforto.

 

 

Resolvi então pedir umas análises para confirmar o meu pior receio, a anemia ferropénica que tinha tido em 2015 está de volta. A notícia caiu como uma bomba, quando o médico me pergunta “com estes valores, não tem tonturas e desmaios, consegue correr?”. Por algum motivo, ainda não identificado, praticamente esgotei as minhas reservas de ferro, sem ferro não há produção de glóbulos vermelhos, há menos hemoglobina e falta oxigénio no organismo.

 

 

Claro está que já estou medicada, com uma dose cavalar. Ando aplicadíssima em mezinhas e numa alimentação que seja rica em ferro e vitamina C e ando a treinar menos para evitar desgaste desnecessário de ferro.

 

 

Mas ando triste, porque reconheço que tenho de abdicar de cumprir o desafio. Vou obviamente acompanhar os meus companheiros de aventura, vou obviamente correr com eles alguns quilómetros, pedalar outros talvez, mas vou ter que desistir do plano inicial, pela minha saúde.

 

 

Depois de Fátima, farei mais exames, uma colonoscopia e uma endoscopia, para despistar causas invisíveis para esta situação, porque aparentemente a única coisa que a justifica será o desequilíbrio entre o consumo insuficiente e o desgaste excessivo por via do exercício físico, aliada ao facto de eu por norma não ter estes valores muito elevados.

 

 

Eu que gosto tanto de desafios, passava bem sem este, mas já que cá está resta-me encará-lo como faço com todos os outros e a dar o melhor de mim, porque posso não ter ferro, mas ainda assim não é fácil vergar.

 

Além disso digam lá se das voltas que a vida dá, a volta por cima não é a melhor que ela pode dar? ;)

Entre o céu e a terra… está a nossa força de vontade! #29

17523112_10208766257142411_1721166460205722644_n.j

 

O desafio que nos colocava o Salming Monsaraz Natur Trail 2017 era aliciante “Vem correr entre o céu e a terra”. Tão desafiante que recebeu 1300 inscrições entre caminhada, trail curto (10 km), longo (22km) e ultra (44km).

 

Uma prova fantástica, digna de estar no circuito do Campeonato Nacional de Trail e acredito que lá chegará.

 

A organização foi irrepreensível: os trilhos, as paisagens, as marcações, os voluntários, os abastecimentos, as informações prévias sobre a prova e toda a logística de refeições, alojamentos, banhos. Empenho e dedicação não falta aos Piranhas do Alqueva. Só uma grande equipa, seria capaz de arquitetar um projeto destas dimensões e não deixar que o São Pedro levasse a melhor no dia da prova.

 

Já sobre mim, esta prova dava mais do que uma crónica… duas ou três talvez fossem suficientes. Mas vou resumir!

 

Nada, zero, nicles acontece por acaso: ou fizeste por isso, ou não fizeste por isso

 

Esta semana surgiu-me a oportunidade de frequentar uma formação na KW Flash uma empresa reconhecida no ramo imobiliário com a particularidade de oferecer formação gratuita, mesmo a pessoas que não são do ramo (o meu caso). Uma postura de abertura e partilha pouco comum, mas lógica, na perspetiva de quem acredita que é importante deixar uma marca positiva nas pessoas.

 

Entre as inúmeras coisas interessantes que ouvi nesta formação que basicamente incentiva as pessoas a encetarem um conjunto de ações que as levarão a um elevado nível de desempenho (independentemente da área), a questão de nos assumirmos responsáveis pelo nosso sucesso e focarmo-nos nas variáveis que, de facto dependem de nós, foi providencial. Dizia o formador que perante os desafios que a vida nos coloca há sempre duas posturas possíveis: a vitimização e a responsabilização.

 

Não fosse isto ter-me cá ficado a tilintar na cuca, eu não me tinha levantado da cama no domingo. A minha mais nova fez febre durante a noite, a hora mudou, e entre chamamentos, medicamentos, trocas de roupa, mudanças de cama, consegui deitar-me para dormir, a menos de 2 horas e meia do despertador tocar…

 

Pensei seriamente em deixar-me ficar na cama, a recuperar daquela noite louca. Mas depois comecei a falar comigo “ok, miúda doente e noite mal dormida = variável que tu não controlas, se te quiseres fazer de vítima agarras esse argumento; levantar da cama e tentar completar a prova = variável que tu controlas, se quiseres ser realmente responsável pelo resultado da inscrição nesta prova, deixas-te de merdas e segues para Monsaraz”.

 

A pessoa que se quer responsável, assume as responsabilidades, procura soluções e progride. Foi o que fiz, muni-me dos meus géis energéticos e barritas para o caminho, alimentei-me o melhor que pude antes da prova começar, tomei dois cafés para abrir a pestana e meti-me na frente da partida.

 

Sono, lama, vento, chuva e o homem da marreta às cavalitas

 

Cada trail é uma lição. Monsaraz ofereceu-me um petisco nunca antes provado em trail: corri ininterruptamente e a bom ritmo os primeiros 11 quilómetros de prova e com apenas duas mulheres à minha frente. Adivinhem? As reservas energéticas começaram a desaparecer e mesmo com as barritas e géis, o motor parecia ter gripado.

 

Parecia que estava num videojogo do pacman (e eu não era o pacman!) comecei a ser “papada” pelas minhas colegas e rapidamente passei para 7ª da geral. Até me consigo divertir com este cenário, adoro vê-las passar por mim e pensar “belas pernas, um dia também hei de conseguir correr assim, hoje não é o dia”.

 

Uns quilómetros antes do castelo, que estava ao km 26, levei com o “homem da marreta”, expressão que esta malta da corrida utiliza para se referir àquele momento que achas que já não aguentas mais, as pernas pesam, a cabeça só pensa em desistir. Eu dizia para mim “não me bastava levar com a marreta, senão ainda ter que carregar o gajo às costas”. As costas! Tenho aqui um problema para resolver, talvez com reforço muscular ou com um ajuste diferente na mochila. Lá saquei do dopping, mas como não tinha Brufen em casa, tinha levado Voltaren Retard, mas o retardado do comprimido não me fez nada, nadinha…

17546765_10203036486191269_6912882393656039640_o.j

 

Chego ao castelo com pouco menos de 3 horas e meia de prova e capaz de ficar por ali, estava tão cansada (só pensava no pouco que tinha dormido) e com as costas feitas num oito, estava tanto vento e chuva, os trilhos tão escorregadios, os estradões lavrados cheios de lama, cada vez que levantava um pé parecia que trazia mais 5 quilos em cada perna… enquanto me decidia comia umas batatas fritas, bebia isotónico e lamentava-me por não ter trazido o Brufen. Diz o senhor do bar “isso tenho aqui, quer?”.  O oásis no deserto!

 

Lá tomei o bendito Brufen, e só a esperança cega que aquilo me levasse a dor de costas deu-me novo alento. Fiquei melhor, o suficiente para pensar “sem dores minha menina, só ficas pelo caminho se te deixares dormir em pé!”.

 

Claro está que a pior parte do percurso começava ali, um sobe e desce dos infernos, mas meus amigos, sem dores tudo se sobe e tudo se desce. Uma cabeça no lugar faz milagres. O ânimo foi tanto que já depois do km 35 ainda consegui recuperar uma posição na geral feminina.

 

A maior proeza: não cair uma única vez

A maior alegria: passar a meta em sprint, com força para um salto e um sorriso

A maior satisfação: fazer 6º da geral feminina, a 21 minutos da 3ª classificada

A cereja no topo do bolo: fazer 1º lugar do meu escalão

A maior certeza: só eu sou responsável por mim e onde chego

17499011_10208766258382442_3192032651703095196_n.j

 

 

 

 

 

 

 

 

Mértola, Mértola, Mértola… cacete! #28

2017-03-07 08.30.00.jpg

Aqui a mulher sem plano de treinos, tem o objetivo ambicioso de chegar a Fátima dia 13 de maio com 4 maratonas consecutivas (10, 11, 12 e 13). Acredite-se ou não em milagres o melhor mesmo é ir treinando… vai daí pareceu-me que inscrever-me em tudo o que fosse ultratrail na ordem dos 44 quilómetros haveria de ser um plano de treino interessante. Acredito que os planos de treinos dos meus outros 5 colegas de peregrinação possam ser mais eficazes, este foi o que me fez sentido.

Depois do Trilhos dos Reis (15 janeiro), seguiu-se Mértola (5 março) e vem aí Salming Natur Trail de Monsaraz (26 março), espero que se inscrevam porque Monsaraz sabe receber!

Agora Mértola… ora Mértola tem muito que se lhe diga, mas numa palavra: du-re-za!!!!

Depois de uma semana a esquiar e de mais de 1000 quilómetros de viagem na véspera, eis que chega o dia de ir trilhar por Mértola.

Para começar bem, meto o despertador para as 05h00 e… não tocou!!!! Acordei às 06h10 com uma chamada do JLC, porque era hora de partirmos e nada de sinais da moça. Ia tendo uma paragem cardíaca! Como já tinha o estojo todo pronto de véspera, nem me perguntem como, em 15 minutos estava a sair de casa. Combinámos então que nos encontraríamos em Beja e assim foi (Nossa Senhora de Fátima e os Anjinhos todos protegeram-me naquela viagem alucinante!).

Já no carro com os restantes companheiros tratei dos preparativos finais (protetor solar, make up – importantíssima!!! vaselina nos pés e perneiras de compressão). Tudo a postos para a aventura.

Chegámos a Mértola com tempo para tudo: levantar dorsais, retirar as camadas de roupa desnecessárias, equipar a rigor, foto da praxe, cumprimentos aos companheiros de andanças, dois dedos de conversa, sinal de GPS ativado e pumba: tiro de partida.

Nos primeiros 400 metros o pódio feminino foi meu (ahahaha, a criança que há em mim diverte-se com estes números, não consigo evitar), depois passou a primeira senhora, logo a seguir a nossa ultramratonista Carla André, a terceira companheira e a quarta, a Rita Afonso, a quem acabei por me colar.

Provas houve em que optei por partir mais devagar, esta não foi o caso. Pensei cá para mim “olha nunca rebentei, se for hoje, pode ser que aprenda qualquer coisa”. Aprendi efetivamente muita coisa, mas uma delas é que não rebento assim às boas.

Pouco depois chega Rita Fernandes e a Ana e por ali fomos durante 18 km, sempre juntas: sobe, desce, sobe, desce. Algumas troços com outros companheiros e senti necessidade de me "apresentar" e pedir que não se ofendessem com os palavrões que não evito, até porque li algures que praguejar é analgésico e nessas coisas e tomo logo a dose mais forte! Vistas magníficas para o rio, para a cidade, cheiro a estevas, alguns borrifos de uma chuva que prometeu por duas ou três vezes mas sempre envergonhada.

Ao km 18 andávamos a correr na areia e comecei a quebrar, falta de energia, dor lombar… hora de abrandar o ritmo, deixar as companheiras seguirem, fazer um xixi, tomar um gel e um anti-inflamatório e recuperar algum ânimo.

Juntaram-se a mim 3 companheiros que, entretanto, voltei a deixar para trás porque aproveitaram a entrada numa localidade para ir ao café. Segui por ali fora cruzando-me com alguns idosos que me olhavam com cara de “não é boa da tola”, houve até uma senhora que não se conteve e lá desabafou “ah coitadinha… vai muito atrasada, já passaram há muito tempo”…

E por ali segui, cabeços acima, cabeços abaixo, a pular vedações, sem ver viv’alma, nem um voluntário, nem um fotógrafo e a rezar para não encontrar nenhum javali, tal era a quantidade de bosta que havia por ali… Fiz um vídeo direto para o Facebook e por ali andei entretida a sentir o cheirinho das estevas e a riscar o cromado no matagal, convencida que dentro de metros encontraria o 3º abastecimento. Passaram 500 metros, um quilómetro, um quilómetro e meio e eu já me convencia que só me podia ter enganado no caminho. Com a brincadeira do Facebook devia-me ter escapado alguma sinalética e só podia estar a fazer o percurso de umas das outras provas, nada de sinal do abastecimento! 2 km depois lá estava o dito, ufa… isotónico à vista (pensei eu, mas mal!). Já tinha acabado o isotónico, tal como no abastecimento anterior por onde passaram também os participantes das outras provas, enfim!

Estava portanto neste abastecimento ao km 28, quando avisto as outras 3 companheiras, não muito longe. Resolvi poupar no tempo do abastecimento, nem reabasteci a água, apanhei 3 batatas fritas, uma barritas e pus-me ao caminho para tentar juntar-me a elas. Sobe cabeço, desce cabeço, mato alto demais para avistar quem quer que fosse… Continuei no meu ritmo de conforto, consigo avistá-las e um pouco mais à frente 2 pontos amarelos “tu queres lá ver que são os meus companheiros de viagem????”. Ganhei uma motivação extra com este avistamento e lá vou eu no encalce deles. Encontro o João e o António ambos em mau estado, um a queixar-se das costas, outro a queixar-se da semana de tratamento a cerveja e cozido com fartura. Fizemos uns quilómetros juntos, subimos a encosta do rio até ao alto do cabeço e dizer mal da vida e a praguejar como se não houvesse amanhã. Lá no alto avistámos o próximo abastecimento que, pelas nossas contas estaria a 2 quilómetros, mas as fitas de marcação do percurso indicavam que para lá chegarmos teríamos ainda que dar a volta ao cerro… vamos lá!

Aqui perdemos o João e começámos a fazer contas à vida… onde raio está a tenda do abastecimento que tínhamos avistado??? A água já tinha acabado, os sinais de desidratação já tinham chegado, os quilómetros indicados para o abastecimento já tinham passado 500 metros, 1km, 2km… raios m’a partam!!! Isto não poder ser, será que já levantaram o abastecimento? Será que aquele que avistámos era de outro percurso? Será que estes senhores da organização não sabem tirar medidas? Só podia ser uma brincadeira… de muito mau gosto. Não sei o porquê, mas sei que só o fomos encontrar 3 quilómetros depois do anunciado, ou seja ao km 40, depois de uma mini ravina onde finalmente voltei a juntar-me às companheiras que tinha perdido ao km 18. Parecíamos camelos num oásis e isotónico, mais uma vez, nem vê-lo.

A pergunta que se impunha: “Estamos a quantos quilómetros da meta? A verdade!!!! Por favor só queremos a verdade!!!”, a resposta foi uma mentira, 4 quilómetros que se vieram a revelar quase 7 quilómetros. Esta distância em estrada faz-se bem, mas esta organização conseguiu guardar para após o km 40 uma montanha russa em 6 km: soooooobe, deeeeeeesce, soooooobe, deeeeeesce. Se ainda haviam pernas, a paciência já não morava ali em nenhum de nós.

Voltei a perder o António primeiro, a Rita depois e consegui manter-me com a Ana e com a Rita Fernandes, naquela montanha russa dos infernos. Uma menina tirava fotografias aos mortos vivos que ali chegavam e uns metros à frente oiço uma voz forte a puxar por mim. Só consegui pensar “com tanto quilómetro onde podiam ter metido gente, juntaram a tropa toda aqui”. Só que aquela voz de comando era o meu querido pai, em êxtase por me ver ali chegar pelo meu pé, de braços no ar, com uma laranja descascada na mão e a dizer “queres filha?? olha, não fizeste 44 km, lá na meta dizem que são 46 km”. Acho que me saltou um palavrão a mim e uma gargalhada a ele. Peguei na laranja, acenei à minha mãe que me gritava que tinha perdido mesmo ali a chave do carro e segui o meu caminho a correr pelo alcatrão.

Passado uns metros a minha tropa chegou de carro ao meu lado: a mãe ao volante, o pai, a minha avozinha e minha Maria que gritava “vai mãaaaaeeeeee”. A Rita e a Ana esperavam por mim com a proposta de cruzarmos a meta juntas (faríamos o 4º lugar exe quo). Agradeci-lhes e pedi-lhes que fossem à minha frente eu ia passar a meta logo a seguir, no lugar que me era devido e de mão dada com as minhas Marias (mãe e filha).

No final, 7 horas, 53 minutos e 18 segundos após o tiro de partida, abraços sentidos entre quem acaba de chegar e de quem já esperava há tempo. Cervejas, sorrisos e o 2º lugar no meu escalão. Um pódio que tive o enorme privilégio de partilhar com a Carla André e com a Rita Afonso, gente absolutamente fantástica, de uma simpatia contagiante.

 

Mais uma vez cruzei a meta a correr, com forças para dar colo à minha Maria e levantar umas cervejas, o resto é só a matéria de que se fazem as histórias

Da porta da minha casa há caminhos para o mundo inteiro #27

 

2017-02-15 11.15.20.jpg

 

Umas das minhas coisas favoritas na corrida é a oportunidade que nos dá de "invadir" caminhos, ruas, que por nenhum outro motivo seria provável que conhecêssemos.


Costumo dizer frequentemente que conheço uma Évora AC e DC, como não vivi antes de Cristo, a expressão remete para Antes da Corrida e Depois da Corrida. E quem diz Évora diz uma série de outras localidades que posso até ter calcorreado anos a fio e que se revelaram numa perspetiva completamente diferente depois de as ter percorrido em modo corrida.

 

Hoje saí de casa para um treino que pretendia que fosse de cerca de 12km. Como ando a passar uma fase preguiçosa sei que só cumpro o objetivo se fugir para longe da porta, porque se o plano for andar por aqui às voltas vou encontrar rapidamente 2 ou 3 desculpas fortíssimas para encurtar o treino.

 

Como vivo na Azaruja (concelho de Évora), resolvi que a volta hoje era ir até Vale do Pereiro (concelho de Arraiolos) e voltar. Já fiz várias vezes esta volta, ir e voltar são certamente 12 km e dei por mim a pensar: só conheço Vale do Pereiro porque corro.

 

E porque corro descobri que tem um apeadeiro da CP (desativado), o que de certa forma é revelador da importância que a localidade já terá tido. Mas mais curioso ainda, porque corro, descobri que tem um parque infantil bem melhor equipado que o da Azaruja, onde acabei por já levar os miúdos a passar uns finais de tarde bem animados. E porque quem vai ao parque depois quer beber água, acabei por descobrir que o café lá ao lado faz uns caracóis e umas torradinhas à maneira, a preços para lá de convidativos!



E enquanto vou e volto, vejo sobreiros, porcos pretos, campos verdes e, pelo canto do olho, o imponente Castelo de Évoramonte (concelho de Estremoz) a fazer-me sinais como quem diz "a próxima voltinha em cima desses ténis é até aqui...".

 

2017-02-15 11.29.12.jpg



Chego a casa, com quase 14km, mais 2km que o previsto porque não resisti a entrar Vale do Pereiro a dentro e ir até à porta da igreja e só então dar meia volta e iniciar o regresso. Chego e começo a pensar que vivo numa freguesia rural, mas que me sinto no centro do mundo (ou numa metáfora desportiva, sinto-me num parque de transições) e que daqui, da porta da minha casa  e em cima dos meus ténis, há caminhos para um mundo inteiro (inteiramente novo para mim, garantidamente!).

É que gosto mesmo disto...

 

2017-02-15 10.25.21.jpg

Sou Rainha meus senhores, sou Ultra de papel passado! #26

2017-01-16 21.23.53.jpg

Comecei 2017 com chave (coroa?) de ouro, fiz-me Ultra no Trilho dos Reis, na Serra de São Mamede no dia 15 de Janeiro, no mês em que fiz 37 anos.
 
A experiência foi magnifica, o resultado foi o pretendido: 7 horas e 38 minutos depois do tiro de partida cheguei ao fim a sentir-me capaz de mais, com vontade de fazer melhor, e isso não tem preço.
 
Correu-me tudo de feição ao longo dos 44 quilómetros da "floresta mágica"!
 
O ambiente é excitante: a música, o pórtico de saída e entrada do mercado, os animadores caracterizados ao longo do percurso, a simpatia dos voluntários (tantos!), a quantidade de fotógrafos que nos faz querer correr e sorrir para ficar bem na chapa, os requintes de malvadez na ilustração dos trilhos, um abastecimento de café quente tirado da máquina na hora ao km 30, tantos e tão bons pequenos detalhes que nos fazem sentir queridos e bem-vindos!
 
Quem, a juntar a isto, souber fazer bem a sua parte e preparar-se, não tenho dúvidas, sente-se verdadeiramente entronizado naqueles trilhos! O que eu me senti grande, mesmo perante aquelas subidas gigantes, e o que eu gostei de descer aquela serra. O sentimento é épico, como se de um duelo permanente se tratasse, ora o trilho me subjuga, obriga-me a abrandar, a apoiar-me nas coxas, a agachar-me, a meter-me de joelhos, ora eu subjugo o trilho e recupero a minha velocidade, salto troncos, derrapo, trepo, de dentes cerrados e ranho em bica, mas determinada a vencer aquela batalha, que é contra mim.
 
A serra é fantástica, o percurso não é para turistas, é para trailers de alma e coração. Os últimos quilómetros ao longo de um curso de água, no meio do arvoredo fizeram-me voar o pensamento para a serra da Lousã onde sofri tanto... fizeram-me perceber o que cresci neste último ano, como descobri um novo eu, sem mais nem medos, e deram-me a confirmação de que nada acontece por acaso.
 
Se vierem por aí outros Cursos das Novas Oportunidades, quero a validação destas minhas competências, adquiridas pela prática, à custa de muito suor, arranhões, quedas, molhas, dores e alegrias: sou Rainha meus senhores, sou Ultra de papel passado!

Relatório (sem Contas) 2016 #25

2015_2016.jpg

Feito que está o relatório em jeito de resumo comparativo, lembro-me agora que não fiz as contas...

 

Quem sabe se não é um bom desafio para 2017: juntar às estatísticas, os encargos e já agora tentar perceber qual é o investimento nesta brincadeira.

 

Ás tantas é melhor não!... Fico sem saber se é muito ou pouco dinheiro. Em todo o caso sei que é barato, muito barato, basta que eu olhe bem para tudo o que aprendi, tudo o que ganhei, tudo e todos os que conheci. Custou dinheiro? Mas não tem preço 

O primeiro dia do teu ano novo, é o dia que tu escolheres #24

File 11-12-16, 00 08 17.jpeg

 

A proximidade da passagem de ano tem este efeito generalizado de nos encher de vontade de fazer promessas de mudança.

 

Pessoalmente não me lembro de ter começado nada significativo para mim no dia 1 de janeiro de que ano fosse.

 

Lembro-me sim de um março em que decidi começar a comer de forma diferente, de um junho em que decidi começar a fazer caminhadas, de um setembro em que comecei a correr, de um agosto em que me inscrevi numa maratona.

 

Aconteceu-me ter vários anos novos dentro do mesmo ano.

 

Dia 1 de janeiro é um bom dia para dormir até mais tarde, para continuar a comer e a beber o que sobrou do jantar de 31 de dezembro, para se prolongar o convívio da noite anterior, para curar uma ressaca, para se dar um passeio. Para começar qualquer coisa verdadeiramente transformadora para nós é tão bom o dia 1 de janeiro, como o dia 3 de março, 27 de julho, 14 de outubro ou qualquer outro.

 

O ano novo das resoluções, das coragens, das valentias, das firmezas está dentro de nós, não está marcado no calendário, não acontece por decreto.

 

Quando derem as 12 badaladas pulem da cadeira, comam as passas, peçam os desejos, façam as promessas, o que preferirem. O verdadeiro ano novo só vai chegar quando cada um de nós quiser verdadeiramente que ele aconteça e ás vezes até, quando menos se espera.

 

O meu último ano novo começou dia 27 de julho de 2014 e nunca mais acabou.

Sobre o significado de desistir #23

2016-06-19 13.28.30.jpg

 

 

Este ano, desde que corro, senti pela primeira vez a tentação de desistir numa prova.

 

Foi durante o Louzã Trail, na prova +25km. Convenci-me que seria prova para completar em 04h30 (ingénua e inexperiente nas lides do trail).

 

Fui acumulando uma série de erros ao longo da prova, entre os quais recordo com carinho…:

 

- Levar os ténis errados que me valeram uma valente dor nos pés (a roçar o insuportável, juraria a quem me perguntasse que não teria uma única unha nos dedos quando me descalçasse e afinal só caiu uma umas semanas depois)

 

- Fiar-me nos abastecimentos de 5 em 5 quilómetros, alheia ao facto que uns serem apenas líquidos e inconsciente quanto ao tempo que pode significar chegar e um abastecimento sólido ao outro, não levei alimentação suficiente

 

- Despir a camisola de tanto calor optar por correr apenas de top, o que me valeu uma assadura em condições na zona lombar, provocada pela mochila

 

- Carregar durante 27 penosos km dois bastões com os quais só tinha treinado 2 vezes

 

Quando já levava 3h30 de prova, perto do km 17 assumi que iria desistir: a juntar às dores nos dedos dos pés e à assadura nas costas, também já tinha caído e, a cereja no topo do bolo, comecei a sentir uma dor tremenda num ligamento do tornozelo. Estava montado todo um cenário do calvário dos tempos modernos.

 

As dores eram de facto muitas. Despedi-me da Carla que já vinha a carregar comigo havia uns bons quilómetros e assumi: eu de-sis-to! Ela deu tudo por tudo para me fazer mudar de ideias, mas não me demoveu, ela avançou e eu voltei para trás.

 

O Gabriel passou por mim em sentido contrário e perguntou apreensivo “lesionaste-te?” e eu respondi de olhos no chão “não, mas não aguento mais” (nem vi que era ele!).

 

A decisão doeu tanto que foi aí que chorei, doeu de tal maneira que por minutos deixei de sentir as dores do corpo. O suficiente para desistir de desistir.

 

Respirei fundo, limpei as lágrimas e falei comigo mesma “Não dói assim tanto pois não? Devagar. Só até ao próximo abastecimento”.

 

Voltei a encontrar o Gabriel e Quim Zé um pouco mais tarde e recomeçou o trabalho de equipa que me tinha trazido até ali com a Carla, cada um a puxar à vez, cada um a esperar à vez. E assim passaram outras 3h30, até que chegámos à meta.

 

7 horas, foi o que precisei para completar aquela prova. Mas as 7 horas foram o menos relevante.

 

Precisei acreditar que era possível terminar.

 

Precisei redefinir prioridades, era mais importante terminar do que cumprir um objetivo de tempo (completamente irrealista).

 

Precisei pedir comida a outro corredor.

 

Precisei relativizar a dor.

 

Precisei avaliar que nenhuma das dores que sentia comprometiam a minha saúde.

 

Precisei querer não desistir.

 

De lá para cá tenho pensado muito no significado de desistir.

 

Acho que encontrei uma definição muito própria, muito minha. O meu entendimento diz-me que há uma grande diferença entre desistir e vermo-nos impossibilitados de prosseguir.

 

Só peço que a sorte me proteja e eu nunca me veja impossibilitada de prosseguir, porque se depender de mim, não foi em 2016 que desisti, não há de ser tão cedo que desisto: que renuncio a atingir cada um dos meus objetivos, que abro mão de chegar de pé, e por meios próprios, onde me propus, ainda que isso implique, por momentos, sofrer, suar ou chorar.

 

Desistir é não querer continuar (esta vem no dicionário).

Tenho o resto da minha vida para fazer “o normal” #22

Refresh efects.jpg

 

 



Acordar às 5h00 e às 6h00 da manhã, sem ter que ser.

Molhar-me até aos ossos.

Sujar-me de lama, até dentro dos ouvidos.

Subir e descer rampas, escadarias, rochas, escarpas, encostas, colinas.

Pular arame farpado, porteiras, muros, troncos, manilhas.

Bater o queixo de frio.

Transpirar.

Ficar com a boca seca, os lábios com gosto a sal e cheia de sede.

Fintar ou pisar bosta de vaca, de cabra, de ovelha, de cão.

Pular por cima de buracos ou para dentro de poças de água.

Ganhar bronze de pedreiro, de verão e de inverno.

Fazer uma coleção de assaduras nas costas, nos pés, nas axilas.

Perder a conta às cicatrizes nos joelhos, nas palmas das mãos, nos cotovelos e aos arranhões nas pernas.

Ficar feliz por avistar uma mesa com tomate, sal grosso e marmelada.

Saber de cor o que significa D+, PR, lesão, milha.

Saber para que quero proteínas, fibras, magnésio, hidratos, eletrólitos.

Precisar de anti-inflamatório.

Não confundir dorsal com frontal.

Passar ribeiras calçada, vestida, com água pelos joelhos ou pela cintura.

Sentir dor na anca, no joelho, nas costas, nas canelas.

Dizer palavrões, muitos, todos, aprender novos, inventá-los.

Acreditar.

Nem acreditar e fazer acontecer.

Perder o fôlego, gritar, recuperar o fôlego.

Repetir mil vezes “nunca mais me apanham aqui” e voltar mil vezes.

Sentir-me anormal, mas não me sentir sozinha.

Sentir-me sã entre os loucos que acompanho.

Ficar, estar, ser feliz.

 

Tenho o resto da minha vida para fazer “o normal”, agora faço isto.

Tão isto... (tive que rabiscar o jornal)

Livre.jpg