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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

A primeira meia-maratona (au, ai, ui…) #6

Sei de fontes próximas que em formações de contexto empresarial em que se trabalha o desenvolvimento do potencial dos colaboradores ao nível da resiliência, superação de desafios em contextos adversos, apresentam muitas vezes o exemplo da maratona (42km195m), como o grande objetivo de vida dos atletas.

 

Pode ser verdade em algumas categorias do atletismo, mas não será uma verdade universal. A realidade é que aconteceu nos últimos anos (não saberei precisar quantos, mas não serão muito mais que 5 anos), uma explosão de corredores de rua - chamam-lhe a democratização da corrida. Uma série de pessoas de todas as idades, gordas e magras, rápidas e lentas, com percursos diferentes ao nível desportivo ou sem percurso nenhum, e com motivações e objetivos muito diferentes, entendeu integrar a corrida nas suas rotinas.

 

Aumentando o nicho dos corredores, aumentam também o número de provas e a sua diversidade, a literatura, a investigação, os artigos desportivos, os grupos informais de corrida e por aí adiante. A experiência da corrida de rua é totalmente diferente do atletismo. Diria eu que é mais perigosa, porque não é necessariamente orientada, mas por isso também talvez mais libertadora.

 

Ora não havendo acompanhamento para a maior parte destes corredores (porque não o procuram, embora o mercado tenha essa oferta), cada pessoa vai ouvindo o seu corpo, percebendo as suas limitações e estabelecendo os seus objetivos, motivado pelas suas conquistas e, num exercício de comparação, motivado pelas conquistas de outros que lhe estão próximos. Admito também, muitas vezes de forma completamente cega e em prejuízo do seu bem-estar, enquanto outros terão mais sorte. Neste contexto, a maior parte destes corredores não espera por estar na sua melhor forma, no auge da sua carreira, para fazer a maratona. É só mais uma etapa, que por vezes chega cedo (demais?).

 

No meu caso precisei apenas de 4 meses entre o dia em que fiz a primeira caminhada e a primeira meia maratona, mas custou caro.

 

O meu corpo andava a adaptar-se a esta nova vida, aos impactos, ao esforço regular. Desde que comecei a caminhar que uma sinfonia de dores se foi instalando no meu corpo, de forma alternada, por vezes em simultâneo, em particular no pé, na canela e na anca.

 

No dia da meia maratona, 7 de dezembro de 2014, recordo-me de ter dito ao meu marido “vou até à partida contigo, mas para te ver sair, não estou em condições de fazer a prova” (sem estar muito convencida daquela resolução, fui equipada, com chip e tudo…), mas a dor no pé estava mesmo a incomodar-me.

 

O ambiente deste tipo de provas é fantástico! A quantidade de gente para fazer a prova e a assistir, pessoas tão diferentes, com estados de espírito tão variados (da concentração sepulcral, à excitação quase circense), é contagiante.

 

Chegados à zona da partida, começámos a encontrar-nos com pessoas conhecidas, algumas das quais com quem já tínhamos começado a partilhar alguns treinos em Évora ou que encontráramos noutras provas, e em grupo é tudo tão diferente… Até hoje a sensação que tenho é que quando nos juntamos em grupo e começamos a tomar decisões dá-se o fenómeno da embriaguez coletiva (mesmo quando não há álcool envolvido). Alguém muito entusiasmado diz “devíamos ir a esta prova” e de repente há outro que mostra o número de dorsal “inscrito e pago” e quando damos por nós já somos alguns 15 a caminho de “não sei onde” para correr distâncias loucas, em percursos com subidas e descidas infernais, em alcatrão ou se for caso disso, enfiados em serras e matos. A este assunto do fenómeno corrida em grupo, voltarei num próximo relato.

 

Aqui o que importa é que a minha amiga Rita, com quem já tinha feito alguns treinos me encontra junto à partida, desmoralizada, a queixar-me do pé, a dizer que provavelmente se com o aquecimento não me sentir melhor não vou fazer a prova, remata com “Vais participar, claro! Fazes o percurso devagar, vais a gerir. Já que aqui estás, não vais ficar a assistir, sem tentar”. Foi o suficiente para me “embebedar”. Tiro da partida e lá vamos nós!

 

Comecei a prova até com um ritmo razoável e completei os primeiros 5km a faltarem-me uns segundos para os 30 minutos “que maravilha!”. Um dos planos que assumi à partida passava por, caso não me sentisse bem, fazer a viragem para a meta na intercessão com a prova dos 10 km, mas quando a avistei não me fez sentido, ainda estava bem, só que o falso bem-estar já durou pouco.

 

Aos 5 km comecei a baixar o ritmo, motivada pela dor no pé que, entretanto, se agravara. Comecei a fazer contas, sabia perfeitamente que o ritmo que tinha feito até ali não seria possível manter por mais 15 km. Aos 9 km já estava a dizer mal à minha vida, a perguntar-me porque raio não tinha feito a viragem para a meta e baixei o ritmo mais uma vez. Nesta altura ora tentava colar-me a outros corredores mais ou menos no meu ritmo e aproveitava as boleias, ora fazia por me motivar olhando para outros que estariam numa situação mais complicada e já caminhavam e pensava “ainda não estás a andar, abranda e continua”.

 

O marco dos 13 km foi dramático… é quando chegamos a Santa Apolónia e fazemos a viragem no sentido da meta, que nos espera em Belém, com 7 km a faltar para o final (ai!). Nisto reparo que já não me dói o pé! Porquê? Dizem que o nosso cérebro não processa duas dores em simultâneo, como é um querido, privilegia a mais forte (não estou segura que seja exatamente assim, mas ali batia certo), e, portanto, o que me doía agora era a canela (olha, esta já não a sentia há umas semanas!).

 

Lembro-me de ter aproveitado todos os abastecimentos da prova para beber e comer o que davam: água, isotónico, sempre com a preocupação de abrandar e não parar.

 

Mais que tudo lembro-me do calvário que foram os últimos 3 km. Já não era o pé, nem a canela, nem a anca, era a alma.

 

A verdade é que tive vontade de chorar e até de vomitar. Porque estava exausta, porque me doía muito o corpo e porque estava emocionada com a proximidade da meta, do objetivo, e com as pessoas que assistiam à prova e me liam os pensamentos “aqui já não se desiste!”, “é o fim”, “vamos, um último esforço a meta está já ali”. Os olhos encheram-se de água e só não me desfiz em lágrimas porque fiquei sem ar. O meu corpo já não conseguia processar tanta coisa. Ou chorava, ou vomitava, ou respirava, ou corria, mas parar de correr não era opção.

 

Respirei fundo, vezes repetidas, ruidosas, gritei, disse muitos palavrões (baixinho, só para mim) e, literalmente arrastei-me até à meta, a cambalear, desfigurada.

 

Assim que lá cheguei, 2h21m21s depois do tiro de partida, diz o rapaz que está a encaminhar os partipantes “Eishhhhh! Caiu???? Vem coxa…”. Acho que balbuciei um “não, está tudo bem”, passei a zona da entrega das medalhas para os finishers, apanhei o saco dos brindes e deitei-me na relva a chorar.

 

Já só pensava, “tenho que me ir tratar”. Comecei a perceber que já não podia ser só correr e alimentar-me de anti-inflamatórios. Era preciso procurar quem me desse umas dicas sobre a forma correta de me ver livre de vez daquelas “dorzites” todas.

 

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