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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Chamam-lhe espírito de sacrifício, mas sai-nos do corpo! #21

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Hoje foi dia de Corrida Monumental em Évora. A segunda edição de um evento grandioso, como a cidade merece. Tal como tudo o que é pioneiro, é controverso e há sempre quem não perceba, quem ache que estorva mais do que beneficia. Mas “esses” não merecem tempo de antena.

 

Sobre aquilo que interessa, eu diria que a organização está de parabéns. Poucos (ou nenhum outro evento) traz tanta vida, cor, alegria e movimento a Évora como a Running Wonders EDP Meia Maratona Corrida Monumental.

 

Para quem corre em Évora, é um dia de sonho! Recebemos muita gente de fora. Amigos e desconhecidos, vêm partilhar o “nosso” asfalto, aquilo que nos diverte, o chão onde nos superamos. E as pessoas saem à rua para aplaudir os corredores (o Bairro de Almeirim é um espetáculo!). E é uma alegria. É isto que sinto.

 

Hoje foi um dia particularmente feliz para mim, a mulher sem plano de treinos, sem treinos específicos, sem treinador, sem grandes expectativas (low expectations are the best).

 

Eu quero sempre fazer melhor, mas na realidade não procuro isso, no sentido em que não planeio treinos: vou treinando.

 

Eu queria fazer o percurso em menos de 1 hora, fiz em 55 minutos. Eu gostava de bater o meu recorde pessoal aos 10km, que estava nos 53 minutos, fiz em 50 minutos e 6 segundos. Saiu-me do corpo, do espírito e da boca.

 

Fiz uma parte do percurso sozinha, a maior parte com o Zé Luís e na última subida juntou-se a nós o João Tomáz (santos homens!). Já lhes dirigi um pedido de desculpa e a todas as boas famílias que estavam naquela hora na Rua da República e dei graças a Deus por nenhuma das máquinas fotográficas ter microfone, porque foi feio. Para mim foi libertador, mas para quem me ouviu foi feio de certeza.

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O percurso dos 10km é bonito nos primeiros 2 km, a seguir é o que tem de ser. E é duro. Não são subidas de trail, não são os cabeços da serra, mas são aquelas subidinhas sacaninhas, que não se avistam mas que as pernas acusam.


Comecei rápido. A adrenalina era muita, mas sentia-me bem. A respiração sempre um pouco ofegante, mas capaz de rolar bem, e assim fiz. O final foi épico. Parecia que tinha tomado uma droga que fez o meu espírito guiar o meu corpo. De olhos fechados, quando abertos embaciados, não via nada nem ninguém, só ouvia o João mandar-me correr mais, a minha cabeça queria responder à voz de comando mas o corpo estava esgotado. E eu gritava e dizia palavrões e corria, completamente desfigurada, com cara de prisão de ventre, mas eram as pernas que estavam presas. Presas ao limite das minhas capacidades. Estava na red line.

 

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Eu acho que tudo o que consegui hoje o devo essencialmente a dois fatores: relativização e sacrifício:

- Relativização porque quem faz treinos longos e provas de trail que demoram 5, 6 ou 7 horas a concluir, quando vai fazer uma prova de 10km, tem a capacidade de relativizar “já só faltam 7km, ou 5km ou 3km”. A meta é já ali. O tempo voa.

- Sacrifício porque quem se quer superar, quem acredita que consegue, dispõe-se ao sacrifício, ou se quiserem, a sofrer. Chamam-lhe espírito de sacrifício, porque a cabeça tem que querer, tem que acreditar. Mas sai-nos do espírito, para se fazer sentir nas pernas e nos pulmões. E quem acredita aceita e quem aceita supera-se.

 

E isto é válido para a corrida e para tudo na vida.

 

Fui a 5ª mulher a cruzar a meta. Fui a 1ª mulher no meu escalão de idade. E fui a 93ª pessoa das 699 que participaram na prova dos 10km.


Sofri.
Sofri tudo o que consegui.
Consegui tudo o que queria.
Consegui.

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