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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Planos de treinos ou Planos sem treinos - eis a questão! #14

Faz hoje um ano estreava-me, em treino, na distância + 35km.

 

Isto fez-me refletir sobre a forma pouco ortodoxa com que tenho preparado os meus desafios. Este facto tem certamente origens várias e a mais significativa talvez seja que os meus desafios nunca foram planeados com grande antecedência.

 

Vejo e admiro, companheiros de corrida que se aplicam afincadamente a cumprir planos de treinos exigentes, que duram meses, que implicam em muitos casos sacrificar as companhias de corrida. Implicam empenho, determinação, esforço, correr "por imposição" x quilómetros, à velocidade y.

 

Até hoje nunca me predispus a tal, se bem ou mal, ainda não descobri.

 

A maratona foi um desses exemplos. Decidi que ia fazê-la 1 mês antes da data e mentalizei-me que teria de fazer algum tipo de treino orientado para o objetivo 19 dias antes do grande dia.

 

A duas semanas da prova já havia pouco a inventar e portanto restava pôr-me a teste em distâncias que eu desconhecia. Tracei o plano: nos dois fins de semana antes da maratona iria fazer dois treinos longos: 25 km e 35 km. Pareceu-me um bom plano (a quem percebe de planos de treinos, pareceu uma insanidade)!

 

Nesta altura já tinha indicações do osteopata para ir treinando sem as palmilhas ortopédicas. E foi assim que me lancei ao primeiro treino de 27 km, sem palmilhas, com os ténis novos que me tinham valido a inscrição na maratona, a companhia do meu marido e a promessa do meu pai de entrega de águas pelo caminho e boleia para casa no final.

 

E no dia 4 de Outubro, tudo correu bem! Foram 27,6km, em 3h02m45s. Durante essa semana mantive o meu registo de não estar 3 dias sem correr, fui fazendo os meus treinos curtos, de manutenção do estado físico e do estado de espírito com os meus companheiros de sempre.

 

Chegou o dia 11 de Outubro e as coisas iam ser diferentes. Para começar o treino ia ser a solo, porque o meu marido não podia ir treinar comigo. Então tracei outro plano para este plano. Nesse dia haveria em Portimão a Mama'maratona, meia maratona de apoio à Associação Oncológica do Algarve e à causa do Cancro da Mama. Se fizesse a prova faltariam acrescentar 14 km a estes 21 km. E assim fiz.

 

Saí de casa dos meus pais, tracei um percurso de aproximadamente 15 km até à partida da prova onde tinha o meu pai à espera com a camisola da prova e o dorsal colocado, troquei rapidamente o equipamento e atirei-me à segunda parte do meu treino. O meu ritmo era muito controlado e fui ficando para o fim, fui-me juntando aos últimos que completariam a distância.

 

As horas foram passando, foram aparecendo algumas dores, nomeadamente na anca, mas nunca pensei que não conseguiria. Fui conversando com outros participantes ao longo do percurso, fui até bastante tempo com um senhor veterano com 52 anos, o senhor Manuel, determinado em cumprir a distância mas que não esperava que a prova não tivesse abastecimentos sólidos ao longo do percurso e começava a dar sinais de falta de energia. Não queria aceitar a minha barrita de frutose, mas insisti tanto que não foi capaz de me dizer que não.

 

E assim cheguei ao fim da prova, entre os 5 últimos atletas a completar o percurso dos 21km, que fiz em 02h16m11s. O que poucos sabiam (só sabiam mesmo os lá de casa) é que estava a cortar a meta dos 36,6 km, em 03h51m39s. Embora feliz com o que tinha acabado de alcançar, a verdade é que cortei a meta zangada.

 

Não percebia porque é que, na reta final, antes de cortar a meta tinha que ziguezaguear entre dezenas de pessoas que atravessavam o corredor. Claro está que aproveitei enquanto os senhores da Associação de Atletismo do Algarve me tiravam o número do dorsal para reclamar e dizer que era uma falta de respeito pelos atletas que ainda não tinham terminado a prova que não houvesse qualquer controlo no atravessamento da pista (quando olhei melhor percebi que já nem as barreiras laterais tinha). A senhora da associação que fazia os registos disse-me então com estas palavras "já passaram mais de 2 horas de prova, já acabou o tempo regulamentar (depois fui ver ao regulamento e percebi que nem sequer era verdade), isto quem demora este tempo já é na brincadeira"... fiquei em choque! Mudei de cor, pensei no senhor Manuel, e nas outras pessoas que tinham acabado de chegar, nas que ainda vinham atrás de mim e perguntei à senhora 2 vezes seguidas "uma brincadeira?????? acha que teria feito melhor tempo???". Olhou-me constrangida, mas nem lhe dei tempo de me responder, porque não ia correr bem, virei costas e fui a praguejar para longe, incrédula com o que tinha acabado de ouvir.

 

Logo depois sentei-me e fui tirar de imediato as perneiras de compressão... erro nº 321... quase não conseguia andar, tinha cãibras fortíssimas e um formigueiro tremendo, valeram-me as massagens feitas pelo pai mas serviu-me de lição (não tenho pressa para tirar as perneiras nos treinos em que opto por usá-las).

 

O balanço era positivo, restava-me acreditar que quem fez aqueles 36,6 km, conseguiria por meios próprios e na vertical chegar à meta dos 42 km na semana seguinte, naquela que seria a minha primeira maratona.

 

Tenho andado a pensar naquilo que acho que pode ser um desafio giro para mim em 2017: seguir um plano de treinos! (falta decidir... para quê!)

 

Treino 27km.jpg        Treino 37 km.jpg