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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

São dores senhor, são dores #5

Lembro-me perfeitamente das dores de articulações, tendões e tornozelos que se apossaram de mim quando comecei a tentar introduzir a corrida nas minhas caminhadas. Eram moinhas e eram chatas. A cada 3 dias era-me apresentada uma nova…

 

Cheguei mesmo a convencer-me de que nunca iria conseguir correr.

 

Tenho uma rótula bi-partida congénita, coisa muito exclusiva, portanto! Entre aquelas histórias que os pais e avós repetem até à exaustão sobre a nossa infância, as minhas histórias da “dor da perna” preencheram muitos serões. Ora porque há uma história sobre a indignação do meu irmão mais novo, e na altura com 3 anos, por eu ser mais crescida e ir ao colo, ora porque se perdeu a conta ao número de médicos e exames a que me levaram sem nunca terem chegado a um diagnóstico, ora porque era uma coisa que me atacava invariavelmente quando eu estava mais cansada e com sono e dava origem a birras monumentais.

 

O diagnóstico chegou aos 22 anos durante um curso de liderança na Academia Militar de Mafra onde, após vários dias de exercício físico intenso, um dia acordei e simplesmente não conseguia por o pé no chão porque tinha dores horríveis na perna. Lá se decidiram por me levar a um hospital nas proximidades, onde me fizeram um raio-x e me disseram: “quando bateu com o joelho no chão fez uma fratura na rótula”. A questão é que eu não tinha batido com o joelho no chão… e o diagnóstico passou a congénito (já nasci assim, partida!). Também fiquei a saber que tinha a bacia desalinhada e uma transrotação do fémur (que é como quem diz, joelhos para dentro e pernas arqueadas – nada de novo). Nada a fazer. Tomar anti-inflamatório e esperar que passe, mas ficar ciente que, a prática desportiva mais intensa faria sempre voltar aquelas dores (entretanto ainda não consegui descortinar qual foi o 13 de maio em que se deu o meu milagre da cura, mas a verdade é que nunca mais na vida tive dores daquelas).

 

Voltando às dores das caminhadas e das primeiras corridas. Tinha presente aquele diagnóstico fatídico e, portanto, ia avaliando cada dor que me surgia, sempre na expectativa de que estivesse ligada à “dor da perna”. As primeiras dores mais chatas e persistentes instalaram-se em outubro de 2014, na 4ª prova que fiz: os 13 km da Volta Solidária do Alqueva. Levei 1h22m a percorrer os cerca de 13 km que nos levaram da aldeia do Penedo Gordo à Barragem dos 5 Reis e voltar. O percurso foi feito essencialmente por terra batida, irregular naturalmente, com zonas de socalcos, muito diferente do alcatrão a que estava habituada até então. Talvez por isso, a meio da prova comecei a sentir uma dor no peito do pé. Esta dor acompanhou-me até ao fim do ano.

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(O entusiasmo antes das dores...)

 

Nos treinos seguintes surgiu a dor na canela, a dor na anca, a dor no joelho, sempre em pernas alternadas. Dor à direita, dor seguinte à esquerda, dor seguinte novamente à direita... Percebi mais tarde que estas dores em pernas alternadas não são um acaso, ou seja, para nos defendermos de uma dor, o corpo tende a compensar aumentando o esforço no lado contrário, portanto, é natural que com esse aumento do esforço uma nova dor se instale no lado oposto. Vamos deixando de sentir umas, passamos a queixa-nos de outras e começamos a convencer-nos que se calhar a corrida não é mesmo para nós, que vai começar a ser só sofrer…

 

Foi a festa do anti-inflamatório durante semanas a fio (comprimidos). Erradamente, agora tenho essa noção, antes dos treinos e das provas, lá tomava mais uns anti-inflamatórios para mascarar as dores.

 

Até que chegou o dia 7 de dezembro de 2014, data da Meia Maratona dos Descobrimentos, em que me tinha inscrito e convencido o meu marido a ir fazer mais uma prova. Um colega de trabalho já tinha feito esta prova que adjetivou de “muito gira”, “sempre plana”, “fácil”. Tudo o que eu precisava de ouvir para me decidir a estrear nos 21 km, ou mais precisamente nos 21 097,5 metros.

 

A verdade é que no próprio dia da prova não estava convencida que a deveria fazer. Entre as dores todas que iam e vinham, a dor no pé persistia. Lembro-me de ter dito ao meu marido, “vou até à partida contigo, mas para te ver sair, não estou em condições de fazer a prova” (sem estar muito convencida daquela resolução, fui equipada, com chip e tudo…).

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(A falta de entusiasmo depois das dores...)

 

 

 

 

 

 

 

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