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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Sobre o significado de desistir #23

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Este ano, desde que corro, senti pela primeira vez a tentação de desistir numa prova.

 

Foi durante o Louzã Trail, na prova +25km. Convenci-me que seria prova para completar em 04h30 (ingénua e inexperiente nas lides do trail).

 

Fui acumulando uma série de erros ao longo da prova, entre os quais recordo com carinho…:

 

- Levar os ténis errados que me valeram uma valente dor nos pés (a roçar o insuportável, juraria a quem me perguntasse que não teria uma única unha nos dedos quando me descalçasse e afinal só caiu uma umas semanas depois)

 

- Fiar-me nos abastecimentos de 5 em 5 quilómetros, alheia ao facto que uns serem apenas líquidos e inconsciente quanto ao tempo que pode significar chegar e um abastecimento sólido ao outro, não levei alimentação suficiente

 

- Despir a camisola de tanto calor optar por correr apenas de top, o que me valeu uma assadura em condições na zona lombar, provocada pela mochila

 

- Carregar durante 27 penosos km dois bastões com os quais só tinha treinado 2 vezes

 

Quando já levava 3h30 de prova, perto do km 17 assumi que iria desistir: a juntar às dores nos dedos dos pés e à assadura nas costas, também já tinha caído e, a cereja no topo do bolo, comecei a sentir uma dor tremenda num ligamento do tornozelo. Estava montado todo um cenário do calvário dos tempos modernos.

 

As dores eram de facto muitas. Despedi-me da Carla que já vinha a carregar comigo havia uns bons quilómetros e assumi: eu de-sis-to! Ela deu tudo por tudo para me fazer mudar de ideias, mas não me demoveu, ela avançou e eu voltei para trás.

 

O Gabriel passou por mim em sentido contrário e perguntou apreensivo “lesionaste-te?” e eu respondi de olhos no chão “não, mas não aguento mais” (nem vi que era ele!).

 

A decisão doeu tanto que foi aí que chorei, doeu de tal maneira que por minutos deixei de sentir as dores do corpo. O suficiente para desistir de desistir.

 

Respirei fundo, limpei as lágrimas e falei comigo mesma “Não dói assim tanto pois não? Devagar. Só até ao próximo abastecimento”.

 

Voltei a encontrar o Gabriel e Quim Zé um pouco mais tarde e recomeçou o trabalho de equipa que me tinha trazido até ali com a Carla, cada um a puxar à vez, cada um a esperar à vez. E assim passaram outras 3h30, até que chegámos à meta.

 

7 horas, foi o que precisei para completar aquela prova. Mas as 7 horas foram o menos relevante.

 

Precisei acreditar que era possível terminar.

 

Precisei redefinir prioridades, era mais importante terminar do que cumprir um objetivo de tempo (completamente irrealista).

 

Precisei pedir comida a outro corredor.

 

Precisei relativizar a dor.

 

Precisei avaliar que nenhuma das dores que sentia comprometiam a minha saúde.

 

Precisei querer não desistir.

 

De lá para cá tenho pensado muito no significado de desistir.

 

Acho que encontrei uma definição muito própria, muito minha. O meu entendimento diz-me que há uma grande diferença entre desistir e vermo-nos impossibilitados de prosseguir.

 

Só peço que a sorte me proteja e eu nunca me veja impossibilitada de prosseguir, porque se depender de mim, não foi em 2016 que desisti, não há de ser tão cedo que desisto: que renuncio a atingir cada um dos meus objetivos, que abro mão de chegar de pé, e por meios próprios, onde me propus, ainda que isso implique, por momentos, sofrer, suar ou chorar.

 

Desistir é não querer continuar (esta vem no dicionário).

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