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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Primeiras a acreditar (em mim!) #34

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Sempre fui boa numa coisa: acreditar.

 

Faz hoje 1 ano fotografei o nascer do sol com a convicção de que seria uma memória bonita do dia em que nos sagrariamos campeões europeus de futebol.

 

A vitória não dependia de mim. Dependia de mim a atitude de acreditar que era possível e ficar com o registo do nascer do sol. Fiquei. Está aqui.

 

Nos últimos dias tenho dado por mim mais observadora que o habitual. A reparar nas pessoas com quem me cruzo, nalgumas expressões, semblantes carregados, sorrisos amarelos para chegar a questões filosóficas do género "quando é que terá deixado de acreditar?".

 

É que faz parte da natureza humana. E faz falta para nos mantermos verdadeiramente humanos: acreditar em nós.

 

Quem já não acredita que é capaz, que é possível concretizar, deixou de viver. Deixou-se engolir pelo conformismo e sobrevive esmagado pelo inevitável.

 

É que é preciso coragem para acreditar em nós. Acreditar dá trabalho. É diferente de viver iludido. Acreditar implica investir nesta verdade ainda antes mesmo de ela existir como tal, dar oportunidade, criar condições para que aquilo em que acreditamos se torne realidade.

 

Ainda que não se acredite em tudo, caramba, devia ser proibido deixarmos de acreditar no que é o melhor para nós, na nossa melhor versão - aquela que nos faz felizes e àqueles que verdadeiramente nos amam. Aquela equipa acreditou na vitória, o Ederzito António acreditou no golo. Fomos todos felizes.

 

Sempre fui boa nisto. Acreditar.

 

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Falha o plano A? O alfabeto é grande à bruta… #32

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O plano A era correr para todo o sempre sem nenhum contratempo, que tal? Era bom, mas é utópico.

 

Contratempo nº 1 uma amiga indesejada ANNE MIA, também conhecida por deficiência de ferro no organismo. Há muitas variantes, muitas causas, muitas intensidades. Os meus resultados são… assustadores. Reservas de ferro quase inexistentes, tudo o que é indicadores bem cá para baixo e de acordo com o médico necessidade de abrandar o ritmo da atividade desportiva.

 

Necessidade de ativar o plano B. Negociei uma dose cavalar de ferro até estar concluído o desafio Évora – Fátima a correr, mediante o compromisso de reduzir as distâncias e o número de treinos após esta data e até estar o diagnóstico devidamente concluído e os níveis dentro do aceitável.

 

Passados que estão 20 dias da chegada a Fátima, ainda não consigo correr. A única tentativa que fiz foi bem esclarecedora do excesso que aquelas 4 maratonas consecutivas representaram para este corpo mal preparado.

 

Necessidade de ativar o plano C. Caminhadas e rolos (bicicleta estática) pareciam ser boas opções para efeitos de recuperação ativa. A primeira tentativa de caminhada (vá, em ritmo passeio no campo) correu bem, mas as duas seguintes (mais ativas) resultam numa moinha na anca e dores absurdas nos tendões de aquiles. As mesmas dores que senti quando tentei correr 11 dias após o regresso de Fátima. A bicicleta estática, no quintal lá de casa… cortem-me os pulsos! Não tenho mesmo paciência nem feitio para estar a olhar para o vazio, mesmo que seja por meia hora.

 

Eis que chegámos ao atual plano D:

- Fazer rolos com companhia/distração, pode ser? Ok. Vamos então até ao Évora Bike Box. Com banda cardíaca metida e em frente ao programa (eu cá adoro jogar Wii, logo achei aquilo o máximo!). Percurso sem grandes subidas, o objetivo é trabalhar as pernas, reforço muscular, dar uso às articulações sem impacto e exercício aeróbico. Posso sempre combinar com as amigas da roda fina um treino, se elas não puderem tenho lá o Gil Santos para me aturar.

 

- Fazer bicicleta ao ar livre. Ok! O objetivo é o reforço muscular, portanto vamos de BTT que até gera maior atrito e tenho mesmo que puxar pela pernoca. Posso sempre acompanhar uns treinos longos dos amigos corredores (e faço umas piscinas para trás e para a frente para meter mais uns km).

 

- Massagens de recuperação. Ok. Programa de massagem de recuperação ativado. Depois de alinhada a estrutura no osteopata, é preciso recuperar os músculos/tendões até que a inflamação desapareça por completo. A Rita no Equilibrium Centro Terapêutico vai tratar dessa matéria.

 

Junto a isto uma alimentação rica em ferro (juro-vos que já deito beterraba & companhia pelos olhos!) e voilá aguardo por melhores dias.

 

Isto para quem correr 3 dias por semana já era tão certinho como beber água tem sido uma adaptação e peras! Sem dramas, sem autocomiseração. As coisas são como são e nada acontece por acaso.

 

Se tiverem que vir os planos E F G H, pois que venham que o alfabeto é grande à bruta.

 

Se antes estava tudo a “correr” bem, agora está tudo “sobre rodas” e amanhã… quando amanhã chegar logo se vê porque de uma coisa tenho a certeza: um passo nunca vem só.

Évora - Fátima a correr, fica tudo por dizer... #31

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Passou uma semana. Gostava de poder contar como foi o nosso desafio a correr entre Évora e Fátima de 9 a 12 de maio, num total de mais de 170 km, mas não posso.

 

Não que alguém me tenha proibido ou que me sinta incapaz de escrever detalhadamente sobre os factos de cada um dos dias. Sei de cor os percursos, o que comi e bebi, o que vesti, as vezes que me encharquei até aos ossos, os palavrões que gritei, as dores que suportei, as vezes que chamei pela minha mãe, que me lembrei dos meus filhos, as orações que repeti até à exaustão, as gargalhadas que dei, as vezes que agradeci poder estar ali, as palavras que escutei e os abraços que recebi, até sei de cor o que pensei e os erros que cometi. Simplesmente as palavras descritivas dos factos nunca fariam justiça ao que realmente foi vivido por cada um de nós.

 

Cada uma das 6 pessoas que fez este caminho terá uma versão muito própria, com um tronco comum: o desafio foi lançado há quase dois anos e foi a oportunidade de nos submetermos a um exercício de superação individual que nos motivou a todos, sem exceção, reforçada pelo simbolismo da vinda do Papa Francisco a Portugal, conferindo-lhe um carater único e irrepetível.

 

Não somos super-atletas, nem os maiores, nem os melhores, muito menos os únicos capazes do que quer que seja. Temos medo do que pode correr menos bem, e há sempre coisas que correm menos bem, não gostamos de falhar, e há sempre falhas mas, por princípio, propomo-nos a conseguir: acreditamos, sempre.

 

Como a sorte protege os audazes, tivemos a sorte de encontrar as pessoas certas umas para as outras, dos que iam correr (eu, a Rita, a Ana, o Zé Mateus, o Zé Luís e o João), aos que iam apoiar (as inexcedíveis Elsa e a Margarida), ficou claro que nada acontece por acaso.

 

O meu corpo habituado a correr nos últimos 3 anos, não estava treinado para este nível de exigência. Foram quatro etapas (48 km + 45 km + 45 km + 36 km) que feitas de forma isolada para quem já tenha corrido uma maratona de estrada não representam nenhum desafio particular, mas que cumpridas em quatro dias consecutivos desafiaram os limites do corpo, mas principalmente os da mente.

 

A dureza dos dias foi sendo minimizada pelas massagens de recuperação, o gelo, os anti-inflamatórios, as palavras de ânimo, o espírito de companheirismo, a alegria dos parceiros de jornada (cada um com as suas mazelas), pelo entusiasmo das famílias e dos amigos que iam acompanhando a nossa aventura, enviado mensagens, telefonando e que a cada palavra de encorajamento faziam renascer a vontade e a esperança de conseguir prosseguir no dia seguinte.

 

Nas etapas finais já a intercalar caminhada com corrida, orientada pela incansável Ana Vieira Lopes, percorri um verdadeiro calvário de dores, lágrimas e orações. Fi-lo por mim, por quem seguia no meu pensamento, por quem me acompanhava, pelos abraços que recebi, pelos olhares doces, pelas palavras de encorajamento e por quem me pedia todos os dias orações, por quem me entregava uma missão (e foram tantas!!!).

 

Descobri que a autocomiseração pode ser o nosso pior inimigo. Descobri que ainda não descobri os meus limites. Descobri que há histórias que não são possíveis de partilhar por palavras, porque são histórias de fé, de emoções, que contadas podem ter mil versões, mas só vividas é que fazem sentido.

 

Humildemente vos digo, não estive à altura do desafio. Desisti mentalmente, e em média, 2 vezes por dia. Mas na verdade, cumpri-o, e isso, nada nem ninguém me tira.

 

P’ra enrijar os ossos? Cálcio e trail! #16

Comecei a correr em 2014 e foi ainda nesse ano que experimentei ir correr para o campo. Não fiz nenhuma prova de Trai Running em 2014, nem em 2015. Limitei-me a fazer treinos em serra, alguns nem sequer em serra, apenas corrida em zonas rurais com alguns declives (mais registo de corta-mato).

 

Foram sempre corridas em grupo, empolgantes! O contacto com a natureza, as paisagens e os caminhos que nem imaginava que por ali se escondiam. A Serra de Valverde, a Serra D’Ossa, a Azaruja, Nª Sra. de Machede ou a Boa Fé renderam (sempre) muitas horas a subir e descer estradas, estradões, corta-fogos e trilhos, a molhar os pés para passar riachos e ribeiras. Renderam lições de geografia, fotografias de paisagens de cortar a respiração e mais, renderam curiosidade pelas provas.

 

Gostei das experiências a achei que valeria a pena experimentar as provas de Trail Running em 2016, e foi assim que fui a Estremoz (17km), a Monsaraz (12km), ao Gerês (27km), aos Açores (20km), à Lousã (27km) e a Monchique (34km).

 

Tem sido um ano para aprender muita coisa, a principal: o trail não nos mata, mas torna-nos mais fortes, literalmente! É tipo cálcio, enrijece-nos a estrutura física, mas também a mental. Este enrijecimento não é por acaso, é fruto da nossa capacidade de relativizar. Depois de passares por determinadas coisas, há outras que deixam de ter importância.

 

É claro que há trails e trails. Nem todas as provas são iguais e ainda bem. Há provas que são autênticos corta-matos com subidas de bónus e outras são autênticas escaladas com escassas oportunidades de correr.

 

Em todos os casos hão de sempre haver umas subidas tramadas (parte pernas) umas descidas valentes (arranca unhas), uns trilhos com mato alto e espinhoso (risca cromado), uns riachos (ensopado de peúga, na melhor das hipóteses) e, com sorte, lama, rochas, lajes, ravinas, escarpas, veredas, troncos, muros, vedações, porteiras. Todo o tipo de obstáculos naturais e construídos que fazem do mato um autêntico parque de diversões (para quem se consegue divertir) ou uma mega sala de tortura (para quem não se consegue divertir e sofre, muito!).

 

Para o bem e para o mal, em todos se cresce, em todos se aprendem lições importantes, sobre o equipamento, as assaduras e as unhas negras, sobre como descer, subir, pular e trepar, sobre como gerir o esforço, sobre como nos alimentarmos, e sobre companheirismo.

 

O trail é sempre duro. Em última análise são provas para gente dura, paciente e resiliente. São provas onde ganha terreno quem tem melhores condições físicas (naturalmente), mas fundamentalmente quem tem maior capacidade de sofrimento. E quem chega ao fim ganha sempre!

 

Para terminar o ano elegi Barrancos, na distância de 42 km. Vai acontecer dia 19 de Novembro, e vamos ser muitos a participar. Vai ser duro, vai doer, mas vai tornar-nos a todos mais fortes e vai render memórias daquelas que são repetidamente contadas e que nos enchem de nostalgia.

 

Diz que o cálcio é bom para os ossos… o trail ainda é melhor.

 

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A história da minha primeira Maratona 42km195m #12

A história começa assim: era dia 5 de setembro de 2015, fui comprar uns ténis da Adidas e a loja oferecia a inscrição para a Meia Maratona ou para a Maratona de Lisboa (o freguês é que escolhia onde se queria inscrever).

 

Confrontada com a oferta não tive muito tempo para pensar e, na realidade, a recuperar da anemia, nem sequer tinha planos para fazer provas até ao final do ano. Pedi então que a loja me inscrevesse na meia maratona, pareceu-me sensato.

 

Depois resolvi partilhar este episódio com alguns companheiros de corrida e começo a ouvir “meias maratonas já tu fizeste!”, “oferecida? isso merecia era a inscrição nos 42km”… Ora aquilo começou-me cá a ferver e num impulso ligo para a loja e pergunto se seria possível alterar ainda a inscrição para os 42km. Não me deram a certeza absoluta mas, em princípio sim. Voltei a ligar uns dias mais tarde, só para confirmar que o meu acesso de loucura tinha resultado de facto na inscrição nos 42km e informaram-me que as inscrições eram realizadas por um departamento central, não tinham como dar-me a informação exata, e mais uma vez ouvi “em princípio sim”.

 

No fundo agarrei-me àquele “em princípio sim” e fiquei com a esperança secreta de que fosse um “afinal não” e lá iria correr os 21km de uma prova onde no ano anterior tinha feito a mini-maratona de 6 km, e portanto seguiria um rumo normal, lógico e ao meu alcance…


Já só me caiu a ficha da dimensão daquilo em que me tinha metido quando recebi o e-mail com a confirmação da inscrição e o número do dorsal, 19 dias antes da prova, no dia 30 de setembro!

 

Não estava preparada, não tinha tempo para me preparar, mas também não tinha feitio para desistir sem sequer tentar. A preparação física no fundo era relativa, desde o início do ano que corria religiosamente 3 vezes por semana. A questão é que fazer 42 km implica treinar a distância e, no meu caso, o máximo que tinha corrido até então eram 23 km. Restava-me tempo para tentar dois treinos longos e foi o que fiz: 27,7km e 36,7km, nas duas semanas que antecederam a prova.

 

Ouvi muitas, mas mesmo muitas opiniões/palpites: "não consegues", "és maluca", não estás bem", "txi... caraças!", "não te metas nisso", "basta acreditar", "tu és capaz", "interessa é acabar"... e tenho que confessar que andei 19 dias a pensar que raio de objetivo poderia eu traçar para mim:

1) Terminar dentro das 6h do tempo regulamentar?

2) Não completar a prova, mas bater o meu recorde na distância?

3) Sobreviver????

 

E mesmo em 19 dias nunca me passou pela cabeça conseguir isto, desta forma: correr durante 42 quilómetros, 195 metros, com um tempo de chip de 04h31m31s.

 

Nada acontece por acaso, e neste caso eu diria mesmo que houve 2 fatores absolutamente decisivos para este desfecho:


1) Eu dei por mim a iniciar aquele prova a QUERER terminar, nem que tivesse que andar, rastejar até à meta, o que fosse preciso!

 

De tanto querer aguentei a dor que se instalou na minha anca direita logo ao km 12 e fiz de tudo para minimizá-la: variar a passada, encharcar-me de água fria, assobiar para o lado.

 

De tanto querer ao km 23 quando dei por mim a pensar "#$%&/*#$ “ainda falta uma meia maratona para ver fim a isto” respirei fundo e fui buscar os pensamentos guardados para "o fundo do poço" ou "a parede": os meus filhos, pensei tanto nos meus filhos...

 

De tanto querer deixei de olhar para os quilómetros que AINDA faltavam e passei a olhar para os que SÓ faltavam.


2) A companhia e o apoio. Na noite anterior lembrei-me que não havia de ir sozinha. Peguei numa caneta e na t-shirt que ia levar para a prova e escrevi os nomes das mais de 40 pessoas com quem costumava treinar, havia de levá-los a todos comigo!

 

Quis o acaso que aos primeiros minutos de prova, entre 4000 pessoas, eu fosse encontrar o Bruno Rodrigues, companheiro de correrias em Évora, um dos nomes na camisola. Encontrámo-nos e resolvemos ali fazer aquilo juntos, enquanto desse. Deu até ao km 38, depois o Bruno seguiu. Conversámos boa parte do caminho, rimo-nos muito, principalmente de nós, partilhámos as dores e as dúvidas e incentivámo-nos a toda a hora. E para mim, foi fundamental ter numa prova aquilo que tenho quando treino: a companhia de amigos, a boa disposição, o espírito de entreajuda e companheirismo.

 

Contou tanto a presença do Bruno quanto as palavras de incentivo e o apoio da minha família, dos meus amigos corredores e não corredores, que me foram chegando até aos últimos minutos antes da prova iniciar (por mensagens e telefonemas). Fizeram tanto pelo meu espírito durante a prova, como fizeram os géis, a frutose, os figos secos, as barritas, o powerade e a água pelo meu físico.

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Tive ainda a sorte louca de nos irmos cruzando uma série de vezes com o pacer das 4h30. Os pacers são pessoas contratadas pela organização que levam um tempo de prova definido, vão sinalizados com uma bandeirola e os corredores podem acompanhar para terem a garantia que cumprem aquele objetivo de tempo. E aquele homem era um espetáculo de pessoa!

 

No início da prova gritei-lhe “este é o meu homem!”, numa analogia à expressão inglesa “that’s my man” querendo dizer aquela pessoa estava prestes a fazer algo espetacular e que eu não o queria perder de vista. Talvez tenha achado graça à expressão e sempre que nos cruzávamos tinha uma palavra de incentivo para nos dar e eu voltava a repetir “este é o meu homem”– ele ria-se e ainda me disse em tomo jocoso “olhe que se a minha mulher a ouve estou metido em chatices”. Foi de tal forma interiorizada aquela frase que no fim da prova vejo uma mulher dirigir-se a mim a agradecer-me e a pedir que agradecesse ao meu marido, porque sem ele e sem o seu incentivo ela nunca teria acabado a maratona. Tive uns segundos em silêncio, a pensar que conversa seria aquela e larguei uma sonora gargalhada quando percebi que a senhora pensou que o pacer, “o meu homem”, era o meu marido… Lá lhe expliquei que não e o porquê da expressão. A senhora terá ficado a chamar-me maluca, mas ainda se riu!

 

Como é que foi a maratona? Não foi como planeada, porque não levava um plano. Não a executei como previsto, porque não levava uma previsão. Á semelhança de todo o meu percurso na corrida, foi uma coisa que fui fazendo. Podia ter corrido mal ou podia ter corrido melhor? Não sei! Sei que foi uma aprendizagem, foi dura, foi dolorosa, foi extenuante, foi irrepetível, foi glorificante...

 

Cruzar a meta? Não dá para explicar, não vem nos livros: avassalador talvez seja um bom adjetivo.

 

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O louco ano de 2015, as suas 13 provas e uma anemia #11

Depois do martírio que foi terminar a primeira meia-maratona, no início de dezembro de 2014, impunha-se que 2015 me trouxesse coisas bem melhores.

 

Na realidade 2015 trouxe-me muita coisa. Entre aquelas que valem a pena relembrar, porque de facto marcaram viragens na minha forma de estar, o desafio de correr 100 dias em 2015, está no topo da lista.

As 3 regras simples, mas de ouro, vieram para ficar:
#1 Não deixar passar 3 dias sem correr.
#2 Correr pelo menos 3 vezes por semana.
#3 NUNCA desistir”


O facto de já nesta altura correr quase sempre em grupo foi um incentivo para os treinos regulares, mas também para a loucura das provas.


Quando treinamos em grupo, os desafios são maiores. Onde há muitos objetivos diferentes, há sempre muitas propostas de treino: treinos rolantes, velocidade, séries, distâncias curtas, médias, longas, rampas, alcatrão, serra, de madrugada, à tarde, à noite, e por aí adiante. A mesma diversidade é depois extensiva às provas em que vamos sendo desafiados a participar: estafetas de 2km, provas de 5km, 10km, meias-maratonas (21km), provas com obstáculos e até a maratona (42km).

 

O primeiro semestre de 2015 foi muito duro, para além dos treinos regulares, em 4 meses participei em 8 provas, entre as quais 2 meias maratonas (provas de 21 km). Nunca tive resultados espetaculares, mas a verdade é que em vez de melhorar, houve provas em que os resultados na distância não equivaliam, nem superavam resultados anteriores e a meia maratona de Lagos, em maio, foi o verdadeiro descalabro. Sentia cansaço, mas achava normal. Muitos treinos, os miúdos pequenos, alguma falta de horas de sono, depois o calor, enfim, muitos argumentos!

 

Foi preciso uma consulta, um pedido de análises de rotina para a médica de família me perguntar “não tem sentido cansaço?”. Lembro-me de lhe ter respondido com outra pergunta, “trabalho, tenho 2 filhos e corro, não é normal andar cansada?”, “mas também tem uma anemia, sabia?”.

 

Eu sei que é parvoíce, mas fiquei contente! “A sério?! Então ando cansada por causa da anemia, então se a anemia for tratada passa-me o cansaço?”. Fiquei radiante porque no fundo já me tinha convencido que tinha limitações físicas para a corrida, aquele pensamento do tipo: “convence-te que não dás mais que isto, poupa-te, os treinos só vão servir para te cansar as pernas, não-dás-mais!” E afinal havia uma esperança no fundo do túnel… a cura!

 

Os meses de verão foram um martírio! Calor + anemia = não está escrito em lado nenhum. Ouvia-me a ofegar enquanto corria, sentia faltar-me o ar, mas assumi o compromisso de não deixar de treinar. Corria menos quilómetros, corria tão devagar quanto necessitava para conseguir respirar sem parecer que estava a ter um ataque de asma, evitava as horas de calor, preferia correr à noite. Nesta fase andava um outro companheiro de corridas mal de um joelho e outro a queixar-se de excesso de peso. Como nada disto nos leva a capacidade de rir de nós mesmos juntámo-nos imensas vezes numas corridinhas que carinhosamente chamávamos “do coxo, do gordo e da anémica”.

 

Passei a comer a todas as refeições alimentos ricos em ferro e outros ricos em vitamina C para ajudar a fixar o ferro (muita, muita, muita beterraba ralada ou cozida, espinafres de todas as maneiras e feitios, agrião, carnes vermelhas) e tomei re-li-gi-o-sa-men-te as ampolas de ferro que me foram prescritas.

 

Foram 4 meses de luta, luta aplicada! A anemia era ferropriva, os níveis de hemoglobina e ferritina estavam abaixo dos valores normais e a verdade é que por natureza sempre tive estes valores muito baixos, sempre próximos do valor mínimo dos intervalos e, portanto, o objetivo era que voltassem a estar dentro do intervalo.

 

No final de setembro já me sentia francamente melhor, tinha recuperado algum ritmo e até já me tinha inscrito em provas que para mim eram importantes. Se recuperasse ia tentar fazê-las o melhor que pudesse. As análises, entretanto, confirmaram valores sempre baixinhos, mas já dentro do intervalo. E foi no fundo mais uma das achegas na mudança da minha alimentação: há vegetais que já não saem da lista de compras semanal.

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Foi nestes planos que fiz, nesta esperança de melhorar a que me agarrei, que entre outubro e dezembro de 2015 dou por mim inscrita em mais 5 provas: a prova de atletismo de Viana do Alentejo (a minha primeira e onde espero poder regressar sempre!), a mítica São Silvestre de Lisboa, onde acabei por bater o meu recorde pessoal dos 10 km, 2 meias maratonas, entre as quais a de Évora, onde bato o meu recorde pessoal aos 21km e nos 42 km da maratona de Lisboa, a primeira e única prova da distância que fiz até hoje.

 

Mas como é que alguém em baixo de forma, a fazer treinos curtos e vagarosos se inscreve para uma maratona: 42km! Como? Porquê? Essa é outra história, que começa assim “um dia fui comprar uns ténis novos…” (continua).

 

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Porque é que os miúdos gostam de uma mãe corredora - 3 factos indesmentíveis #10

A mãe da Maria sempre correu. Quero com isto dizer que comecei a correr quando a Maria tinha pouco mais de um ano, agora com 3 anos, lembra-se desde sempre de me ver equipar e sair para os meus treinos e provas. Assim que me vê calçar os ténis, não se abstêm de me perguntar “mãe, tu não vais correr?”.

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Com o Mateus foi diferente, até aos 5 anos teve uma mãe dedicada às rotinas casa-trabalho-trabalho-casa, a quem apertava a barriga gorda e adorava perguntar se estava grávida e que, de repente passa a ter a mais qualquer coisa na agenda, que a faz sair de casa e não estar 100% às ordens dos pequenos e adoráveis críticos ditadores.

 

3 e 7 anos são aquilo que muitos chamam “idades complicadas”, na verdade todas serão, todas terão as suas complicações, mas estas são exigentes, são birrentas, são muito dependentes, mas também são muito plásticas, moldáveis, diria eu.


Se me perguntarem se eles não reclamam quando percebem que vou sair para treinar ou para uma prova, claro que sim, muitas vezes (sem dramas) e ainda bem! Não sou dispensável, nem substituível na vida deles – sou A mãe. É suposto que sintam a minha falta, que reclamem assim como é perfeitamente natural que ainda não percebam o bem que faz à mãe ter “os seus momentos”.

 

A logística e o suporte familiar que isto implica (e que sei que nem toda a gente arranja com facilidade) é outra matéria, não menos importante, mas não sobre o que quero escrever hoje. O que poderá interessar é que com 3 e 7 anos ainda não tiveram de ficar sozinhos para a mãe ir correr! Nem perto disso. Ficaram sempre muito bem acompanhados ou pelo pai, ou pelos avós e bisavós, ou pelos padrinhos, ou por uns amigos 5 estrelas, ou pela ama, ou simplesmente na escola e em atividades extracurriculares. Nunca, por um segundo, lhes faltou nada pelo simples facto de eu estar a correr. Poderá ter-lhes sobrado frustração por não me conseguirem demover, mas capricho, por capricho, que ganhe o meu que também mereço.


Reclamações e caprichos à parte, os meus miúdos gostam da mãe corredora que têm há 2 anos, senão por mais motivos, pelo menos por estes três que se seguem:

 

  • Eles fazem parte do meu mundo da corrida. Há muitas maneiras de fazer isto. Em alguns treinos eles podem correr também ou acompanhar de bicicleta, trotineta e afins. Dependendo do circuito onde se corre, é possível estar a fazer um treino e tê-los por perto e claro antes do exercício terminar, fazer um sprint onde eles ganham (e a mim não me resta senão continuar a treinar para os superar…). O Mateus particularmente, com 7 anos, consegue com facilidade fazer 30 minutos de exercício entre corrida e caminhada. Não acontece com regularidade, mas já aconteceu uma ou duas vezes, em grupo, e ele adorou. Por outro lado, não raras vezes, em particular as provas de estrada, já têm também programa para a pequenada, corridas infantis, em que os miúdos adoram participar. É uma questão de lhes ir dando também oportunidade de se integrar no meio. E convenhamos é uma coisa fácil de lhes explicar (infinitamente mais do que aquilo que fazemos no trabalho, por exemplo!). Quando não se podem integrar de maneira tão efetiva na corrida, como é o caso da Maria ainda com 3 anos, não raras vezes, é no pós-treino que “brincamos à ginástica” e alongamos os três em grande galhofa. Além disso podem sempre ir esperar-nos aos metros finais de uma prova, acompanhar-nos, aplaudir, gritar por nós e ver-nos cortar a meta com aquele ar de satisfação de quem acaba de se sagrar atleta olímpico medalhado, ainda que tenha chegado nos 10 últimos!

 

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  • Mãe que corre em grupo faz novos amigos… e os filhos também! Ora porque a prova, ou treino longo combinado com o grupo mete almoçarada, ora porque há um aniversário e a corrida mete bolo no final, ora simplesmente porque é preciso hidratar no pós treino, a verdade é que a vida do corredor de rua tem muito de… boémio! Se calhar não é preciso chegar a tanto, mas o convívio faz parte da corrida em grupo e naturalmente os miúdos estão, sempre que possível incluídos. Onde há muita gente, acabam por haver também outras crianças e com isto ganhamos a sua bênção. Quando à pergunta “vão haver outros meninos, mãe?” a resposta é afirmativa, então podemos ir correr e o mais depressa possível para que o convívio não tarde.

 

  • Eles acham que tenho SEMPRE hipótese de fazer pódio e, em todo o caso, adoram as medalhas de finisher. “Ganhaste mãe?”, esta era a pergunta milionária sempre que regressava a casa vinda de uma prova (2 anos depois já não é tão frequente!). É difícil perceber como raio é que tanto treino não dá direito a ir às provas fazer pódio e aquela máxima do “o que importa é participar” é uma seca. Mas a verdade é que as medalhas de finisher já lhes fazem as delícias. O Mateus já chegou a carregar umas quantas para a escola para mostrar orgulhoso, aos colegas, os feitos da mãe. A Maria prefere usá-las como colares majestosos nas suas indumentárias de princesa. Dão para todos os gostos.

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Qual é o miúdo que não adora correr? Eles compreendem-nos, não nos julgam, serão sempre os nossos fãs da primeira linha. Mais do que tudo não merecem ser “usados como desculpa”, disso é que é eu não me perdoaria.

 

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E quando o sofá fala mais alto? #8

Há dias tramados! O trabalho aperta, há muita coisa em casa para fazer, os miúdos precisam de atenção e quando chega o nosso momento, o sofá está ali a piscar-nos o olho, calha a todos. Resistir-lhe? Não é fácil...

 

O truque para fugir ao assédio do sofá é a regra.


Até ao final de 2014 (comecei a correr efetivamente em Setembro) não tinha regra. Ia correndo à medida do que apetecia, do jeito que dava. Algumas semanas corria 5 dias, a maior parte conseguia correr 2 dias, outras semanas não havia um único dia dedicado à corrida. E não fazia mal nenhum, nem bem.


Em Dezembro de 2014 recebi um convite, via Facebook, para aderir a um evento promovido pela Run Is a Gift chamado “Desafio Correr 100 Dias em 2015”. Um desafio simples com um conjunto de regras simples:


“Correr no mínimo 100 dias em 2015 (pelo menos 1 km) a começar no dia 1 de Janeiro!

As 4 regras são simples:

#1 Não deixar passar 3 dias sem correr.
#2 Correr pelo menos 3 vezes por semana.
#3 Não falhar nenhuma segunda-feira.
#4 NUNCA desistir”


A regra #3 acho que cumpri, meia dúzia de vezes. A 2ª feira, de facto, não era um bom dia para eu correr. As outras 3 regras são de ouro! Foram uma verdadeira bússola e o trampolim para aquilo que todos nós precisamos: instalar o hábito e gerir o compromisso.

 

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Isto não se aplica a uma pessoa que tenha um plano de treinos muito rígido, mas quem está nesse patamar muito provavelmente tem outras bússolas, outros incentivos. Quem está só à procura de um incentivo para correr de forma regular, pode ter neste tipo de desafios um bom aliado.


E esta atividade desportiva presta-se a este tipo de desafios! Não estás dependente de um horário de abertura e de fecho de um espaço, não ficas constrangido porque pagaste e não estás a conseguir cumprir, nem tens que pagar mais se quiseres ir mais vezes e por aí adiante. Qualquer hora, em qualquer dia, podes fazer cumprir a tua vontade de honrar o compromisso com o desafio, que é só contigo.


Nunca precisei correr só 1 km. Houve dias, porque acabei por participar em estafetas, em que fiz pouco mais de 2 km. Houve dias em que o despertador tocou às 06h30 e outros em que a corrida começou num dia e terminou no outro (já passava da meia noite) mas o compromisso foi honrado, a corrida foi feita e a regra foi cumprida.


Também houve dias para quebrar as regras, para estar mais de 3 dias sem correr e para desistir a meio de um treino. Faz parte. Mas o foco foi sempre: responder às regras do desafio. A verdade é que dia 22 de Agosto de 2015 tinha o desafio dos 100 dias cumprido, mas mais do que isso, tinha o hábito de correr 3 vezes por semana instalado, tinha a minha vida organizada em função desse compromisso e era possível continuar. Mantenho estas regras até hoje (o mais possível, claro!).


Outro auxiliar precioso no meu caso foi ter encontrado os grupos de corrida! Cada um sabe de si e cada um avaliará os benefícios que lhe traz correr em grupo. Para mim é como faz mais sentido: em grupo.


Claro que muitas vezes corro sozinha, muitas vezes corri só com o meu marido, mas muito mais vezes corri em grupo e é onde prefiro correr a maior parte das vezes, em última análise o que vale, é o que te motiva.


Tem coisas boas, tem coisas muito boas e também tem coisas chatas porque “melros e pardais, não somos todos iguais”. Mas a verdade é que, saberes que há um sítio onde vais encontrar outros como tu, que gostam de correr, que também têm dias onde a vontade não abunda, onde não te vão deixar ficar para trás (ou onde vão voltar atrás por ti), onde vão puxar por ti e insistir, onde vais fazer planos, para um treino diferente, ou para a próxima prova, onde sentes que podes desafiar e ser desafiado sem que te julguem como o “maluquinho da corrida”, esse é o sítio onde vais querer estar. Ainda por cima, sem compromisso, sem joia, sem mensalidade e, quase sempre com boas gargalhadas à mistura.


Tenho a sorte de, na cidade onde vivo, existirem dois grupos de corrida informais que se juntam com regularidade, onde qualquer pessoa pode aparecer e juntar-se a um treino: Correr em Évora (https://www.facebook.com/correremevora) e Évora Night Runners (https://www.facebook.com/evoranightrunners).


O Correr em Évora, no qual sou participante ativa, tem a particularidade de organizar os treinos regulares, durante a semana, ao final da tarde (normalmente com início entre as 18h30 e as 19h30, mas pode sempre variar), com ponto de encontro na rotunda Manel da Gaita, a das bicicletas. Funciona de maneira muito regular durante o ano letivo, com treinos variados, e um dia especial para quem se está a iniciar, mas quando o calor começa a apertar e fica difícil correr neste horário, as corridas em grupo começam a não ser tão frequentes, mas ainda assim vão existindo.


O Évora Night Runners, com os quais corro também bastantes vezes, principalmente no Verão, tem a particularidade de organizar corridas à noite. Muito regulares na programação, às 2ªF e 4ªF não falham os treinos, com início às 21h30 na rotunda das Portas da Lagoa.


Dito isto, quem quer evitar que o assédio do sofá leve a melhor, monta a sua estratégia. Pontapé nas desculpas, nos argumentos refutáveis! O meu sofá? Há 2 anos que se vê grego comigo… mas também temos os nossos momentos, naturalmente!

 

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