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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Regresso ao Trail, nos Trilhos de Mértola #59

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Então passo a explicar Mértola!

Nos últimos 2 anos o meu foco voltou-se para as provas de estrada. Uma ou outra participação em provas de trail, atrás de um treino de força ou de horas em cima das pernas.

Porque é que é importante começar por aqui, porque quando o nosso foco é o trail a malta prepara-se. Pensa na alimentação em função dos abastecimentos anunciados para a prova, nas unhas dos pés que é preciso cortar, nas meias que vai levar, de meter vaselina nos pés. A estrada fez-me "esquecer" isto tudo.

Com o objetivo de completar os 100k em outubro, o trail voltou a estar no meu foco. No meu mapa de treinos e de provas. Mas Mértola apareceu assim numa conversa de circunstância "Vamos? Vamos!"

E eu que quaaaase já me tinha esquecido do empeno de 2017 nos 44km, feita anja, qual inocente... fui sem pensar muito nisso.

Ora bem... vá de levar lambadão para abrir a pestana!

Assim só para tornar a coisa mais desafiante logo de base: uma noite quase sem dormir no Sicó, uma viagem de 390km agarrada ao volante em 5 horas (que as paragens eram obrigatórias para repor os níveis de cafeína), mais uma noite de solo duro em Mértola, nada preparado para o pequeno almoço, trincar uns bolos secos e um café providenciados pela organização.

Grupeta de amigos ajuntada, tiro de partida e saímos do Pulo do Lobo, sem objetivos, a não ser rolar pelos trilhos até chegar a Mértola. E se aquilo é bonito! Aquilo é lindo senhores, assim que se levanta a cabeça do chão, o queixo cai. É verdade. E a organização fez um trabalho brutal nos trilhos. Tínhamos socalcos, verdadeiras escadinhas, pedras, terra, areia, ervas, paus, o Guadiana sempre a guardar-nos o flanco, subiiiiiiiiiiiiiiidas e desciiiiiiiiiiiiiiidas para todo o tipo de artista.

Ao km 6, ou perto disso, avisto o homem da ventoinha sentado numa pedra. A prova da Ultra Distância tinha começado 2 horas antes e o João lá se decidiu depois de chegar aos 10km da prova dele, em vez de seguir o percurso, a voltar para trás e esperar pela companhia.

Ainda avançámos uns km em grupeta com o André, a Susana, a Teresa e um algarvio bem disposto que só gostava de correr nas descidas e falar pelos cotovelos e que deve ter afugentado o Campeão que parecia uma flecha e foi a correr para o pódio.

Na zona mais pedregosa começámos a avançar em ritmos diferentes e acabei por seguir com o João, que umas vezes sem querer, outras a saber bem o que fazia, foi puxando por mim, naquela que acabou por ser a minha primeira experiência de prova de trás para a frente. A partir dali foi sempre a recuperar posições, a passar malta ora sozinha, ora em grupos e a sentir-me bem.

Falhou-me o cuidado dos pés, que a determinada altura, se começaram a queixar (duas unhas negras e assaduras das costuras das meias) e faltou-me cuidado na alimentação porque 2 abastecimentos em 6 horas de prova onde não há comida mais substancial chega a uma altura que dá porradão (a tal parede). E eu sem géis, sem os meus figos e as minhas amêndoas, movida a água, a pastilhas isotónicas, ao som da playlist do telemóvel e da voz do João que não me deixava quebrar, que me fazia crer que aquilo até me estava a correr bem e que me descompunha de cada vez que me começava a estalar o verniz e a desfiar palavrão que até fervia: “Olha aí a criação!” e eu já lhe respondia “Mas qual criação?! Como eu me sinto agora sei lá eu se não me foram buscar ao contentor do lixo”.

Bem, e a verdade é que, sem treinos, sem preparação e sem descanso, acho que até correu para lá de bem. A primeira vitória foi não ter ficado pelo caminho. A segunda foi chegar a meio da tabela da geral feminina (15 em 30) e a terceira um 4 lugar do escalão a menos de 3 minutos do lugar no pódio. Que a gente não anda cá para ganhar nada, mas depois gosta destas novelas!!!

Os próximos 8 meses prometem. Ainda vem por aí um mês e meio de paragem por conta de outros objetivos pessoais que, entretanto, me impedem de fazer a Maratona de Aveiro. Mas a motivação está no sítio certo. Devagarinho lá chegaremos.

#roadto100km

40 anos? Sai um treino de 40km! #58

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1 mês me separa da minha última “aventura”.

Ia fazer 40 anos daí a umas semanas e não tinha planos, nem ideias, nem vontade. Fui treinar sozinha e dei por mim a pensar nisso e em como não me revia naquele sentimento. Eu adoro fazer anos, se tiver oportunidade de festejar durante uma semana, faço-o cheia de entusiasmo. E, no entanto, ali estava, a ver a data a aproximar-se e… nada!

Ia fazendo os meus km e pensando “são 40 anos caraças, não há como deixar passar isto em branco, mas é uma terça feira… que dia de caca, mesmo no início da semana, os miúdos com aulas, toda a gente a trabalhar…”

E assim do nada surge a ideia… “40 anos! E se combinasse um treino de 40km??? Não tenho treinado um boi, falta menos de um mês, deve ser das ideias mais parvas… mas era desafiante…” Deixei a ideia ficar ali naquele cantinho das ideias que ainda precisam de um bocadinho de consistência para estarem minimamente capazes de serem partilhadas: que percurso, com quem, a que horas, com que tipo de autonomia/apoio. Ali esteve a fermentar.

O mal foi levantar a ponta do pano e olhar para ela outra vez, já de banho tomado, com aquela sensação de “isto sabe tão bem depois do treino feito”.

Não podíamos ser muitos… o percurso podia ser terra batida, mas isso dificultaria ter um carro de apoio connosco, logo o alcatrão que tornaria mais fácil o apoio, não era o ideal para um grande grupo. Eu que engraço com isto do significado dos números pensei que tinha a sua piada sermos 7 ou, eu mais 7, já que ia acontecer a 7 de janeiro. O desafio seria encontrar 7 pessoas disponíveis na manhã de um dia de semana… achava eu.

Ainda a achar a ideia disparatada mandei-a ao ar com o João Tomáz. Falei no dia 7, não especifiquei o mês. Ele que a 7 de dezembro estaria nos Açores, caiu-lhe de tal modo em graça a ideia dos 40 anos / 40km que logo depois da resposta inicial “já me estás a meter em apertos” começou a falar na hipótese de não ir aos Açores. Descobrimos a tempo que estávamos a falar de meses diferentes!

O Campeão respondeu ao convite com um simpático “que remédio”, a Ana Vieira Lopes “conta comigo”, o Pimpão “terei todo o gosto em acompanhar”, a Rita “vamos pois”, a Maria “posso ir contigo amiga” e o Ico “achas que falhava este convite?”. Todos difíceis de convencer, portanto…

Felizmente “as minhas pessoas” são daquelas que quando um diz “vamos?” o eco por norma é “vamooooooos”. E assim enquanto o diabo esfregava um olho tínhamos o Esquadrão 40 montado.

Passo seguinte ligar à mãe e falar com a amiga Elsa para serem o nosso carro de apoio. Nem pestanejaram <3. Aliás, foi falar na ideia à Gabriela e à Luísa e começar a receber propostas para ter fotógrafa à partida e comitiva de boas vindas à chegada: o universo conspirava a favor.

A maior surpresa foi na véspera ver o meu paizão chegar cá a casa quando me tinha dito que teria que ir trabalhar e só vinha no próprio dia, mais tarde.

Ponto de encontro marcado. Percurso definido: ir e voltar à Azaruja, a localidade onde vivi os últimos 13 anos e onde os meus filhos nasceram. A mãe deixa os meninos na escola. O pai leva-me à partida com o carro carregado de material para os abastecimentos: cervejas, águas, marmeladas, snacks diversos.

Chapa de partida tirada e lá vamos nós. O carro de apoio sempre por perto, a Elsa no registo fotográfico, o meu pai ao volante.

Instalou-se a galhofa, começaram a puxar por mim e sai nada mais nada menos que a cada quilómetro, um pequeno episódio de ilustração da minha vida. 40 km em modo storytelling que sacou muita gargalhada.

A primeira paragem faz-se aos 22 km já no pelourinho da Azaruja. Saca-se do farnel e vai de hidratação. Mais umas chapas e toca a regressar a Évora. Aos 30km começou a pesar, faz-se mais uma paragem breve para hidratação e reposição energética. O normal. As dores de crescimento chegam a todos, a cada um de sua maneira. O relato continua e, já a avistar-se os 40km, vemos os balões e a claque que nos esperava em êxtase.

Foi tãaaaaao bom!

Esperavam-nos abraços, sorrisos, balões, espumante e copos para um brinde aos meus 40 anos, aos nossos 40km.

Á conta desta brincadeira, os amigos, convencidos que eu gosto de correr, presentearam-me com os mimos mais diversos: a Maratona de Aveiro (Abril), os 100 km de Abrantes (Outubro) e os 60km do EPIC nos Açores (Dezembro).

É caso para dizer que este novo escalão, este novo ciclo da minha vida está aí para me desafiar, para me transformar, para garantir que me afasto de tudo o que é pouco, porque pouca coisa ninguém merece.

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A cada meta cruzada, pelo menos, um abraço #57

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A cada meta cruzada, gosto de abraços.

Fui habituada desde cedo, pelo meu pai, a abraçar profundamente, descaradamente, sem pudor, sem vergonha, sem medo de mostrar fragilidade ou mariquice.

O meu pai grande e forte com voz de trovão ensinou-me, sem nunca me ter dito, que o abraço é um hábito dos generosos, dos humildes, dos resolvidos, dos bem amados.

O abraço acalma, o abraço cura, o abraço é cumplice das vitórias e é paliativo das derrotas.

O abraço é para quem pode, não é para quem quer.

Felizes os que sabem a que sabe "o" abraço.

Ó mãe que corres... #56

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Nunca percas a capacidade de cuidar da pessoa, 
da mulher que existia antes da mãe. 
Não confundas caprichos, com necessidades. 
Acredita. 
Faz planos. 
Persiste. 
Rodeia-te das pessoas certas. 
Segue os teus sonhos e projetos. 
Faz isto tudo com uma asa. 
Na outra asa leva os teus filhos. 
Quando chegar a vez deles, 
saberão exatamente como se faz, 
porque viram acontecer.

Um Passo Nunca Vem Só

10 km em menos de 50 minutos, ou o dia em que a tartaruga levantou vôo #55

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Resoluções de ano novo todos já fizemos um dia. Listas de objetivos a cumprir também. Aos 39 anos deu-me para isto: “antes de fazer 40 anos hei de correr os 10km em menos de 50 minutos”.

 

Faço anos a 7 de Janeiro e a chegada dos 39 fez-me pensar que, naturalmente, os famosos 40 anos estão a acenar e talvez fosse giro chegar a esse marco com alguns objetivos já cumpridos:

- Sub 50 aos 10 km

- Sub 1h50 aos 21 km

- Sub 4h aos 42km

 

Sou avessa a planos de treinos. Tenho as minhas regras, tento nunca estar 3 dias sem treinar e correr 3 vezes por semana. Mas treino específico não faço. Reforço muscular também não. Na verdade não treino, simplesmente corro. Umas vezes mais rápido, outras mais devagar, umas mais curtas, outras mais longas, com subidas e planos, vou tentando variar, mas sem rumo. Isto torna tudo mais difícil por um lado, mas mais prazeroso por outro. Objetivo sem pressão.

 

Nestes quatro meses e meio desde que começou o ano fui-me inscrevendo em provas de 10km, para as quais ia olhando como uma possibilidade de cumprir o objetivo e, se não desse, contava como treino.

 

E foi nesse espírito que fui às provas de Grândola fazer 50’49’’, da Costa da Caparica fazer 54’05”, da corrida do Benfica fazer 52’20’’, de Montemor fazer 51’59”, de Beja fazer 53’38’’ e finalmente, de Vendas Novas onde me saiu finalmente os 49’13” (chip).

 

Durante o aquecimento encontrei o Carlos Lopes da A Minha Corrida, que se preparava para ser pacer do 5 min/km e quem eu já tinha tentado acompanhar na Costa da Caparica. Trocámos umas impressões, estava decidida a acompanhá-lo e assim fiz no primeiro km, depois vi dois amigos a ganhar um pouquinho mais de ritmo e pensei “vou acompanhar, pode ser que dê”, além disso tinha o Carlos como referência atrás, portanto ir com eles significava que se abrandasse, desde que o Carlos não me passasse, ainda estaria dentro do ritmo.

 

Os sub 50 saíram a ferros, mas saíram. Saíram com a ajuda do Nuno Marques e da Susana Espada a quem me colei e a quem fui ouvindo no sentido de não me exceder quando não devia e de aguentar o passo quando o meu corpo já pedia misericórdia.

 

A prova é realmente das mais planas em que participei. A Costa da Caparica é ainda mais plana, mas o calor desse dia e o facto de estar com anemia (ainda não diagnosticada) nessa altura, literalmente rebentaram comigo e não fui capaz de fazer o que fiz hoje.

 

Hoje quis a cabeça, o corpo deixou, a companhia ajudou e a tartaruga asmática (que sou eu, mesmo sem asma!) levantou vôo e atingiu o objetivo. Tanto assim que aindo houve tempo para pousar para a foto, antes do cronómetro da prova marcar os 50 minutos!

Há dias felizes e hoje foi um deles.

Correr a Maratona de Atenas: a autêntica! #54

Demorei a conseguir escrever umas linhas sobre a Maratona de Atenas, mas não podia deixar de o fazer, afinal de contas esta é “A” Maratona, a original, a autêntica e eu tive a sorte de participar e acabar… bem!

 

Faz sentido primeiro enquadrar esta participação. A ideia foi da minha amiga Ana Vieira Lopes, devíamos estar no final de 2017. Andava eu numa fase de pouco treino e ela lança o desafio dizendo “é das mais duras, tem mais de 20km de subida!”. O que me fez responder de imediato “nem pensar que me meto numa coisa dessas, só tu para achares isso um bom desafio!”.

 

O tempo foi passando, a ideia foi amadurecendo e numa tarde de domingo, daquelas sem grande coisa para fazer fui ao site e sem pensar muito nisso… inscrevi-me: “nunca fui à Grécia, vamos passear a Atenas e depois logo se vê!”.

 

Estávamos em Abril e eu praticamente sem treinar nada de jeito, a fazer uma Pós Graduação em Marketing Digital a 150 km de casa, dois dias por semana, entre as 18h00 e as 23h00, que me obrigava a trabalhos e exames e me “roubou” a oportunidade de treinar regularmente. Em Julho fiz o último exame e recomecei a treinar.

 

Foi horrível, um corpo que se desabitua de treinar (pelo menos um corpo como o meu, sem histórico no atletismo) pena muito para recuperar o ritmo, a respiração e vontade. E eu que me dou tão mal com o calor para correr, não tive outro remédio senão contrariar a cabeça, a falta de vontade e o corpo e recuperar aquele ritmo de treinos das 3x por semana.

 

Optei por não me entregar a um plano de treinos, que eu sei que faz tooooda a diferença quando queremos evoluir e atingir objetivos mais ambiciosos. Mas o meu objetivo era humilde: fazer a prova sem ter de caminhar e terminar. Para isso, tinha de ter o corpo treinado para resistência e isso implica treinos regulares e uma cabeça afinada.

 

Não meti outros objetivos, como por exemplo melhorar o meu tempo na distância, porque em todas as crónicas que li sobre a prova repetiam-se as menções às subidas, ao facto de ser uma maratona com essa particularidade, de não ser prova para “tempos”. E li várias mesmo, por exemplo no blog do Vitor Dias, Correr por Prazer, com o título Maratona de Atenas - Crónica, ou no site Ativo, nas palavras de um runner brasileiro, com o título Maratona de Atenas que faz jus a sua fama de inesquecível, entre outras. Curiosamente nenhuma falava nos tempos que tinham feitos noutras maratonas, comparativamente com a de Atenas, o que me deixou ainda mais curiosa.

 

Eu só tinha feito uma maratona de estrada em prova, no longínquo ano de 2015, uma maluqueira sem preparação nenhuma e tinha feito em 4h31. Portanto sempre pensei que ir a Atenas significaria fazer mais de 5 horas, convenci-me disto à séria.

 

Depois comecei a olhar para o gráfico da prova e… meus amigos… aquela porra assusta:

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Bem, restava-me treinar! 27 de Junho entrei em modo “contagem de treinos”, que durou até ao dia 6 Novembro: 76 treinos. Todos eles partilhados na página de Facebook deste blogue.

 

Os primeiros 18 treinos foram penosos. Durante dois meses fiz imensos treinos a uma média de 6’30’’/km alguns a ritmo ainda mais lento e só por duas vezes consegui baixar do ritmo de 6 min/km. Houve dias que só tive vontade de arrumar os ténis num canto escondido lá de casa e dedicar-me à bricolage. O corpo não respondia… precisava de tempo e eu sem paciência.

 

No final de Agosto o ritmo começou a melhorar e em meados de Setembro pareceu-me boa ideia inscrever-me numa série de provas que me ajudariam a puxar mais pelo ritmo, a treinar a força de pernas e a alimentação em prova. E foi assim que fiz 5 provas entre 23 de Setembro e 20 de Outubro: Corrida do Tejo (10km); Trail Sem Pavor (15km); Trail Serra de Portel (26km); Meia Maratona de Lisboa (21km) e Trail Abrantes 100 (25km).

 

Na Meia Maratona de Lisboa foi onde comecei a acreditar que finalmente o corpo estava a responder aos treinos. Sem querer, numa prova que mete uma terrível subida até à rotunda do Marquês, bati o meu recorde na distância e fiz a prova em 1:54:16. Senti-me sempre muito bem durante o percurso, capaz de puxar e dar o máximo nos quilómetros finais, mesmo a queimar o cartucho. Foi fantástico!

 

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Ficava a faltar o treino mais longo. Um que metesse mais de 30 km. E foi aí que me lembrei de desafiar uns amigos e irmos rever um percurso que já tínhamos feito na aventura Évora a Fátima a correr: Golegã » Fátima! A quem isto possa não dizer nada, este percurso de 31km tem a particularidade de passar pela Serra de Aires e Candeeiros… aquela porra sobe, meus amigos, sooooooobe a doer. Já só percebi agora há pouco tempo que o ganho de elevação deste treino com menos 10km que a Maratona de Atenas é bem superior ao da prova e a perda de elevação muito menor. Ou seja, pena-se bem mais neste treino do que em prova em Atenas.

 

Bom e já chega de enquadramento!

 

A MARATONA DE ATENAS

 

A Ana Margarida que me falou na prova, entretanto mudou de objetivos e tinha decidido não ir à Grécia. Iria eu e o meu marido, que por motivos vários, entretanto optou por alterar a inscrição para a prova dos 10km. Água vai, água vem e a Ana afinal decide ir. Iriamos partir juntas e eventualmente fazer ali uma equipa em que lhe caberia naturalmente a ela puxar por mim, mais do que o contrário. Mas a inscrição foi feita em alturas muito diferentes e os nossos melhores tempos em prova também não coincidem, acabaram por atribuir-lhe o bloco de partida diferente do meu.

 

Sem stress: o ponto de encontro passa a ser o hotel! Com quase 19.000 pessoas na start list é impensável programar outros pontos de encontro.

 

Na véspera fomos até à Expo levantar os kits. É enorme! Nunca tinha estado numa mostra tão grande de produtos e equipamentos. Acabei por comprar um porta dorsais com uma bolsa expansível que me pareceu que seria uma óptima solução para os meus géis e o meu telefone. E não foi má compra… parvoíce foi levar o meu telefone que é gigante e pesado e que me valeu uma moinha e uma assadura nas costas e na barriga, que tive que ir rodando a bolsa.

 

Bem, o primeiro desafio era meter o sono em dia! É que ainda são 2 horas de diferença e no dia da prova, levantar cedo significou sair da cama às 3h da manhã (hora portuguesa!). Não correu mal, a adrenalina era muita. Depois um pequeno almoço em condições, com ovos, fruta e aveia, faz-se um farnel com banana e umas amêndoas para comer mais perto da hora de partida e lá fomos a caminho dos autocarros que nos transportariam até à cidade de Maratona, a 40km de Atenas.

 

Tudo bem organizado, apanhámos o autocarro no ponto mais próximo do hotel e fomos curiosas observando o nascer do sol e o percurso que coincidiria em boa parte com o que faríamos na corrida de regresso.

 

Chegadas a Maratona começámos a ter noção do que é uma prova com 18.000 pessoas… é muuuuuuuuuita gente. É uma banho de mundo! Vê-se de tudo, nem dá para descrever: idades, nacionalidades, condições físicas, equipamentos para todos os gostos e feitios.

 

Deixámos a roupa que levávamos a mais no bengaleiro móvel que levaria os pertences de regresso à meta, recolhemos o plástico que nos protegeria do frio até ao início da prova e um buff verde que a organização distribuiu como forma de sensibilização para a necessidade de reflorestar a zona devastada pelos incêndios deste verão.

 

Seguimos para as filas da casa de banho (centenas!!!) e num instante passou o tempo e chegou a hora de nos dirigirmos para os blocos de partida. Ainda houve tempo para avistar a chama olímpica e tirar umas fotos, deu aquele arrepiozinho bom. Aquela sensação de estar a viver qualquer coisa única na vida… e que privilégio!

 

Embora nos emails que fomos recebendo houvessem imensos avisos sobre a desclassificação dos atletas que partissem de um bloco que não correspondesse ao seu dorsal, curiosamente havia controlo zero à entrada dos blocos… coisa que nunca tinha visto em nenhuma outra prova!

 

Comer a banana, bebericar uma água e… vontade de mais um xixi que já não havia onde fazer. Aguenta! Claro está que não fui a única e nos primeiros quilómetros era ver o pessoal a procurar o melhor local para mudar a água às azeitonas. Corri 8 minutos e tive que improvisar um WC, achei que estava prestes a explodir. Valia mais perder ali 1 minutinho do que comprometer a minha prova mais adiante. E foi a melhor decisão. Estava pronta para encarar a dita.

 

Os primeiros 8km são super tranquilos, quase sempre a perder elevação. A partir daqui começam a avistar-se as ditas subidas que eu fui encarando uma a uma com a cabeça levantada a tentar perceber até onde se via gente e onde deixava de se ver, o que significava que o terreno ali começaria a perder elevação. Não demorei a perceber que estava a fazer o tipo de prova que mais gosto, onde é inevitável a variação de ritmo, em virtude da sucessão contínua de topos: sobe, desce, sobe, desce.

 

Parte pernas? Não há ali nenhuma subida assim! Ao ponto de arder o músculo? Um ou dois momentos. Lembro-me do km 16, porque estava a sentir a subida e lembro-me das subidas nos tuneis já dentro de Atenas. Todas as outras subidas, que são realmente muitas, vão sendo compensadas pelas descidas que lhes seguem.

 

Depois há as pessoas no percurso, à passagem pelas várias localidades, há mesmo muita gente a dar ânimo, é impossível passar indiferente e não sorrir. Muitas distribuem ramos de oliveira que os corredores aceitam (eu aceitei um para rapidamente perceber que aquilo não dá jeito nenhum a transporta e deixei-o pelo caminho).

 

Há todo um cenário arrepiante de uma terra que o fogo engoliu… havia a determinada altura do percurso um pórtico insuflável com um apelo aos corredores para colocarem o buff verde e darem cor à zona ardida por onde iriam passar e muita gente vestida de preto, num gesto de luto por aquela devastação que aplaudia e agradecia o gesto dos corredores.

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E depois há os milhares de corredores que vamos observando e analisando pelo caminho e que servem de motivo de abstração por largos quilómetros. A forma como respiram, o tipo de equipamento ou acessórios que levam, a forma peculiar da passada. É caso para dizer mesmo: só visto!

 

Já com mais de metade do percurso feito comecei a recear o “homem da marreta”. Fui sempre comendo, bebendo, deitando água pela cabeça, mas estava convencida que a qualquer momento poderia sentir aquele cansaço, o desânimo… que nunca chegou!

 

Fui observando as dezenas de postos de socorro pelo caminho, pensei várias vezes em parar e pedir spray para os gémeos que a determinada altura começaram a acusar os km, mas só via gente a ser massajada com pomada e eu tinha as perneiras. O tempo que ia perder a baixá-las, massajar, voltar a subi-las… resolvi arriscar e seguir sem paragens.

 

Eis que chega o famoso km 31! E a partir daí a prova começa a perder elevação. Que sonho! A descer, corria soltinha como nunca pensei que fosse possível.

 

Ao km 32 liguei ao meu marido: achou que tinha desistido! Não, só queria saber onde é que a claque estava posicionada, queria receber a bandeira do meu grupo de corrida para entrar com ela no Estádio de Atenas. Respondeu-me “Estás bem? Então corre que eu trato do resto.”

 

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Não dá para vos descrever a sensação de entrar na cidade de Atenas… é verdade que ainda faltavam uns bons km para terminar a prova, mas naquele caso passam a ser “só” os km que faltam. É a reta final, com casas, com gente, muita gente e muito apoio nas ruas. Também é onde se começam a ver os casos graves de gente que se arrasta, que cambaleia, gente deitada a ser socorrida, é um misto de sensações. Depois enviaram-nos umas estatísticas onde fiquei a saber que nos últimos 5km fui ultrapassada por 306 pessoas, mas passei… 1022!

 

Não conseguia parar de sorrir. Entrei no meu modo maluquinha e comecei a falar sozinha, estupefacta a olhar para o relógio, o tempo que tinha em prova e o ritmo a que ainda conseguia correr “Isto é espetaculaaaaaaaaaar Tânia Patrícia”.

 

Nos últimos quilómetros da prova lá estava a claque tuga distribuída, uns a gritar, outros a tirar fotos e o marido com a bandeira em punho ainda correu uns metros ao meu lado para saber se eu estava bem. E pronto, daí para a frente meus amigos… que sorriso que eu levava! Acho que animei uma parte da assistência nesses quilómetros que me olhavam e retribuiam o meu sorriso com palmas mais fortes e as mesmas palavras gregas que incentivo que fui ouvindo ao longo do caminho. Foi bruuuuuuuu-taaaaaaaaaaal.

 

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Entrar no Estádio Panatenaico, cruzar a meta e perceber que tinha acabado de fazer aquilo em 4h09 minutos… queria EXPLODIR de alegria.

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A Ana Margarida também terminou a prova dela muito satisfeita! Mais uma pessoa que bateu o recorde pessoal na maratona de Atenas, com a marca de sub 4 horas. Portanto quando me dizem que esta não é a prova para bater recordes pessoais, só tenho a dizer que pode ser. Vai depender do nosso percurso e naturalmente do tipo de corredor que somos, do tipo de provas em que nos damos melhor. Para quem está habituado a correr sempre em plano direito, aqui é capaz de se dar mal. Mas não somos todos iguais, não é verdade?

 

Eu adorei a experiência, o tipo de prova. Achei desafiante naturalmente, mas longe de ser um bicho de sete cabeças. É uma Maratona! São 42km a picar alcatrão. Para mim, com a vantagem de poder variar o ritmo em função do ganho ou perda de elevação. O percurso não tem uma beleza particular. Mas o facto de nos permitir estar nos estádios de Maratona e no Panatenaico de Atenas, a proximidade com a chama Olímpica, o número absurdo de participantes, o facto de aqui neste mesmo percurso estar a origem da prova e outras particularidades fazem com que valha muito a pena vir fazê-la.

 

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Cortar a meta não significa chegar ao fim #53

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Quando cortas a meta não chegaste ao fim.

Significa que cumpriste um percurso.

Um de muitos que fizeste antes daquele dia.

Um de muitos entre tantos que se seguirão. 

Na meta não termina prova, mas provaste que consegues ali chegar.

Não é prova de tudo o que vales. Mas faz prova do valor que tens.

O tempo, o ritmo, a distância são apenas detalhes de um momento, têm o valor que tu lhes quiseres dar, o sabor que lhes quiseres sentir.

A meta é a só a sensação de dever cumprido, um dever a ti próprio antes de todas as coisas.

Não chegaste ao fim.

Cumpriste.

Acabaste de recomeçar...

Correr em Grupo... é uma merda! #52

 

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Correr em grupo é uma merda!

Antes que me crucifiquem passo a expôr os meus argumentos.

- Em primeiro lugar correr em grupo é uma merda porque nos "obriga"! Obriga-nos na medida em que sentimos que há ali um laço, um compromisso, um dia, uma hora, um treino que alguém vai conduzir, não pode ser no dia seguinte, nem mais tarde (tão tarde, que "afinal já não vou hoje!").

 

- Em segundo lugar, há sempre alguém a puxar por nós, naquele momento em que pensas "chega disto, vou voltar para o carro", há uma voz amiga que te faz seguir no sentido do grupo e fazem-se sempre mais uns quilómetros do que aqueles que a nossa mente preguiçosa estava disposta: "mas não podemos atalhar já por aqui???"

 

- Em terceiro lugar, é o ritmo. Vamos no nosso ritmo de conforto até percebermos que podiamos estar a ir um pouco mais rápidos para acompanhar o grupo, começamos a arfar, a dizer mal à vida e no final: "UAU, eu fiz estes quilómetros a este ritmo?!" = superação!!!!

 

Então na verdade é das melhores merdas que acontece a quem quer correr e, tal como eu, tem ataques de preguicite, tem acessos de procrastinação, tem uma tendência danada para adiar, para deixar para amanhã, para atalhar o percurso, para ir mais devagar "que eu vou bem assim".

 

E depois um grupo de corrida faz coisas horríveis do género, levar-nos por caminhos, zonas, trilhos que sozinhos nunca percorreríamos, mostrar-nos ruas, bairros e travessas da cidade onde vivemos que nem sonhávamos que existiam ou permite-nos conhecer quase tanta gente nova como quando mudamos de escola (vocês não sei, mas há muita gente que muda de escola há mais de 20 anos).

 

Quem ainda não experimentou não sabe o que anda a perder... há merdas que vale mesmo a pena experimentar!

Se te custa correr, porque é que corres? #51

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Isto de correr, tem muito de penar. É verdade e quem disser que não, está a mentir.

 

E por isso é legítima a pergunta: MAS POOOORQUÊEEEEEEEE?

 

A determinada altura todos nos perguntamos isto. E hoje deu-me pra isso. Ia a correr, a penar e a pensar: “porquê?”. Por que raio uma pessoa se submete de livre vontade a tomar uma ação que sabe que lhe vai custar, que lhe sai do pelo. Nem tinha a desculpa de me ter comprometido com alguém, ou de me sentir na obrigação de responder a um objetivo marcado, nada.

 

E cheguei a uma conclusão simples: a isto chama-se ter um propósito.

 - Porque é que vamos estudar (já naquela fase em que o ensino não é obrigatório), sabendo que vamos queimar as pestanas, que vamos fazer serões agarrados aos livros, aos trabalhos?

- Porque é que escolhemos trabalhar, quando podemos viver encostados a alguém, ou ao rendimento mínimo?

- Porque é que nos casamos, se podíamos viver solteiros e não ter de abdicar, nem ceder, nem partilhar?

- Porque é que temos filhos, se podíamos não ter de cuidar de ninguém, nem de limpar cocós, nem de passar noites em claro, nem de andar sempre com o coração nas mãos.

 

Porque temos uma expectativa e temos um propósito.

 

Porque acreditamos verdadeiramente que, de alguma forma, todas estas coisas que não são só rosas, em algum momento nos acrescentam. E com a corrida é igual. Há ali alguma coisa que nos acrescenta. Não é igual para todos, não acrescenta o mesmo, nem de igual forma. Mas acrescenta. Tal como estudo, trabalho, casamento e filhos a corrida traz-nos coisas boas para o corpo e para a cabeça.

 

E enquanto sentimos que o balanço é positivo, perdoamos o mal que sabe pelo bem que faz!

Porra que algum dia tinha que me calhar... foi em Monsaraz! #50

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2018 é o meu "ano para esquecer" a nivel desportivo. Motivos vários fizeram-me abrandar o ritmo dos treinos (isto sou eu a ser simpática comigo, na verdade não tenho treinado a ponta de um corno!).

Desde o dia 1 de janeiro e até ao dia de hoje, 25 de março, fiz-me à corrida 12 míseras vezes (1 treino em Março!)...

Mas o Monsaraz Natur Trail é daquelas provas que não se falham e com um simpático convite dos Piranhas do Alqueva para me associar como embaixadora à prova... nem que chovessem picaretas, tinha que ir.

A prova de 12km era duuuuuuuuura! Um sobe e desce impiedoso, muita lama, muita pedra, muito socalco, durinho, durinho.

Ao contrário das outras edições, este ano o início e o fim da prova estavam instalados no Castelo de Monsaraz, mais um ponto a favor de uma prova cuja paisagem não tem igual aqui por estas bandas.

As marcações, a organização, os voluntários, os abastecimentos, tudo preparado ao mais infímo detalhe. Com o cuidado e o carinho de quem quer bem a quem ali vai.

Posto isto resta-me dar os parabéns aos Piranhas e renovar o meu agradecimento, por um lado pela oportunidade de ser uma das caras de uma prova que levo no coração e por outro lado pelo empenho com que a organizam, e que ajuda claramente a subir o nível do trail que se organiza no Alentejo.

Quanto a mim... bem...

Algum dia tinha de ser o dia! Algum dia tinha que me calhar não me sentir em condições de me superar. E assim sendo, deu para tudo. Para desfrutar da paisagem, para tirar fotos, fazer vídeos, conversar com os companheiros do caminho... acabou por ser uma nova experiência nas distâncias curtas.

Meti a teste uns óculos para ver se resolvo o meu problema de lágrimas em prova (deixo de ver!) e, se não foi só coincidência, parece ter resultado.

Por outro lado voltei a cair em prova, baaaaaahhhhh... Já tinha saudades de me esbardalhar. Pontapé numa pedra e... pumba! Parecia uma tartaruga ninja enrolada pelo chão antes do salto para kick rotativo no ar. Apesar de tudo não me magoei, o impacto foi com as mãos e levava as minhas ricas luvas "ampara-quedas". A companhia da minha equipa, rever companheiros de andanças, conhecer malta nova e... cerveja no final porque tudo está bem, quando acaba bem!

 

 

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