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Um passo nunca vem só

Um passo nunca vem só

Correr a Maratona de Atenas: a autêntica! #54

Demorei a conseguir escrever umas linhas sobre a Maratona de Atenas, mas não podia deixar de o fazer, afinal de contas esta é “A” Maratona, a original, a autêntica e eu tive a sorte de participar e acabar… bem!

 

Faz sentido primeiro enquadrar esta participação. A ideia foi da minha amiga Ana Vieira Lopes, devíamos estar no final de 2017. Andava eu numa fase de pouco treino e ela lança o desafio dizendo “é das mais duras, tem mais de 20km de subida!”. O que me fez responder de imediato “nem pensar que me meto numa coisa dessas, só tu para achares isso um bom desafio!”.

 

O tempo foi passando, a ideia foi amadurecendo e numa tarde de domingo, daquelas sem grande coisa para fazer fui ao site e sem pensar muito nisso… inscrevi-me: “nunca fui à Grécia, vamos passear a Atenas e depois logo se vê!”.

 

Estávamos em Abril e eu praticamente sem treinar nada de jeito, a fazer uma Pós Graduação em Marketing Digital a 150 km de casa, dois dias por semana, entre as 18h00 e as 23h00, que me obrigava a trabalhos e exames e me “roubou” a oportunidade de treinar regularmente. Em Julho fiz o último exame e recomecei a treinar.

 

Foi horrível, um corpo que se desabitua de treinar (pelo menos um corpo como o meu, sem histórico no atletismo) pena muito para recuperar o ritmo, a respiração e vontade. E eu que me dou tão mal com o calor para correr, não tive outro remédio senão contrariar a cabeça, a falta de vontade e o corpo e recuperar aquele ritmo de treinos das 3x por semana.

 

Optei por não me entregar a um plano de treinos, que eu sei que faz tooooda a diferença quando queremos evoluir e atingir objetivos mais ambiciosos. Mas o meu objetivo era humilde: fazer a prova sem ter de caminhar e terminar. Para isso, tinha de ter o corpo treinado para resistência e isso implica treinos regulares e uma cabeça afinada.

 

Não meti outros objetivos, como por exemplo melhorar o meu tempo na distância, porque em todas as crónicas que li sobre a prova repetiam-se as menções às subidas, ao facto de ser uma maratona com essa particularidade, de não ser prova para “tempos”. E li várias mesmo, por exemplo no blog do Vitor Dias, Correr por Prazer, com o título Maratona de Atenas - Crónica, ou no site Ativo, nas palavras de um runner brasileiro, com o título Maratona de Atenas que faz jus a sua fama de inesquecível, entre outras. Curiosamente nenhuma falava nos tempos que tinham feitos noutras maratonas, comparativamente com a de Atenas, o que me deixou ainda mais curiosa.

 

Eu só tinha feito uma maratona de estrada em prova, no longínquo ano de 2015, uma maluqueira sem preparação nenhuma e tinha feito em 4h31. Portanto sempre pensei que ir a Atenas significaria fazer mais de 5 horas, convenci-me disto à séria.

 

Depois comecei a olhar para o gráfico da prova e… meus amigos… aquela porra assusta:

Altimetria Maratona de Atenas 2018.PNG

Bem, restava-me treinar! 27 de Junho entrei em modo “contagem de treinos”, que durou até ao dia 6 Novembro: 76 treinos. Todos eles partilhados na página de Facebook deste blogue.

 

Os primeiros 18 treinos foram penosos. Durante dois meses fiz imensos treinos a uma média de 6’30’’/km alguns a ritmo ainda mais lento e só por duas vezes consegui baixar do ritmo de 6 min/km. Houve dias que só tive vontade de arrumar os ténis num canto escondido lá de casa e dedicar-me à bricolage. O corpo não respondia… precisava de tempo e eu sem paciência.

 

No final de Agosto o ritmo começou a melhorar e em meados de Setembro pareceu-me boa ideia inscrever-me numa série de provas que me ajudariam a puxar mais pelo ritmo, a treinar a força de pernas e a alimentação em prova. E foi assim que fiz 5 provas entre 23 de Setembro e 20 de Outubro: Corrida do Tejo (10km); Trail Sem Pavor (15km); Trail Serra de Portel (26km); Meia Maratona de Lisboa (21km) e Trail Abrantes 100 (25km).

 

Na Meia Maratona de Lisboa foi onde comecei a acreditar que finalmente o corpo estava a responder aos treinos. Sem querer, numa prova que mete uma terrível subida até à rotunda do Marquês, bati o meu recorde na distância e fiz a prova em 1:54:16. Senti-me sempre muito bem durante o percurso, capaz de puxar e dar o máximo nos quilómetros finais, mesmo a queimar o cartucho. Foi fantástico!

 

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Ficava a faltar o treino mais longo. Um que metesse mais de 30 km. E foi aí que me lembrei de desafiar uns amigos e irmos rever um percurso que já tínhamos feito na aventura Évora a Fátima a correr: Golegã » Fátima! A quem isto possa não dizer nada, este percurso de 31km tem a particularidade de passar pela Serra de Aires e Candeeiros… aquela porra sobe, meus amigos, sooooooobe a doer. Já só percebi agora há pouco tempo que o ganho de elevação deste treino com menos 10km que a Maratona de Atenas é bem superior ao da prova e a perda de elevação muito menor. Ou seja, pena-se bem mais neste treino do que em prova em Atenas.

 

Bom e já chega de enquadramento!

 

A MARATONA DE ATENAS

 

A Ana Margarida que me falou na prova, entretanto mudou de objetivos e tinha decidido não ir à Grécia. Iria eu e o meu marido, que por motivos vários, entretanto optou por alterar a inscrição para a prova dos 10km. Água vai, água vem e a Ana afinal decide ir. Iriamos partir juntas e eventualmente fazer ali uma equipa em que lhe caberia naturalmente a ela puxar por mim, mais do que o contrário. Mas a inscrição foi feita em alturas muito diferentes e os nossos melhores tempos em prova também não coincidem, acabaram por atribuir-lhe o bloco de partida diferente do meu.

 

Sem stress: o ponto de encontro passa a ser o hotel! Com quase 19.000 pessoas na start list é impensável programar outros pontos de encontro.

 

Na véspera fomos até à Expo levantar os kits. É enorme! Nunca tinha estado numa mostra tão grande de produtos e equipamentos. Acabei por comprar um porta dorsais com uma bolsa expansível que me pareceu que seria uma óptima solução para os meus géis e o meu telefone. E não foi má compra… parvoíce foi levar o meu telefone que é gigante e pesado e que me valeu uma moinha e uma assadura nas costas e na barriga, que tive que ir rodando a bolsa.

 

Bem, o primeiro desafio era meter o sono em dia! É que ainda são 2 horas de diferença e no dia da prova, levantar cedo significou sair da cama às 3h da manhã (hora portuguesa!). Não correu mal, a adrenalina era muita. Depois um pequeno almoço em condições, com ovos, fruta e aveia, faz-se um farnel com banana e umas amêndoas para comer mais perto da hora de partida e lá fomos a caminho dos autocarros que nos transportariam até à cidade de Maratona, a 40km de Atenas.

 

Tudo bem organizado, apanhámos o autocarro no ponto mais próximo do hotel e fomos curiosas observando o nascer do sol e o percurso que coincidiria em boa parte com o que faríamos na corrida de regresso.

 

Chegadas a Maratona começámos a ter noção do que é uma prova com 18.000 pessoas… é muuuuuuuuuita gente. É uma banho de mundo! Vê-se de tudo, nem dá para descrever: idades, nacionalidades, condições físicas, equipamentos para todos os gostos e feitios.

 

Deixámos a roupa que levávamos a mais no bengaleiro móvel que levaria os pertences de regresso à meta, recolhemos o plástico que nos protegeria do frio até ao início da prova e um buff verde que a organização distribuiu como forma de sensibilização para a necessidade de reflorestar a zona devastada pelos incêndios deste verão.

 

Seguimos para as filas da casa de banho (centenas!!!) e num instante passou o tempo e chegou a hora de nos dirigirmos para os blocos de partida. Ainda houve tempo para avistar a chama olímpica e tirar umas fotos, deu aquele arrepiozinho bom. Aquela sensação de estar a viver qualquer coisa única na vida… e que privilégio!

 

Embora nos emails que fomos recebendo houvessem imensos avisos sobre a desclassificação dos atletas que partissem de um bloco que não correspondesse ao seu dorsal, curiosamente havia controlo zero à entrada dos blocos… coisa que nunca tinha visto em nenhuma outra prova!

 

Comer a banana, bebericar uma água e… vontade de mais um xixi que já não havia onde fazer. Aguenta! Claro está que não fui a única e nos primeiros quilómetros era ver o pessoal a procurar o melhor local para mudar a água às azeitonas. Corri 8 minutos e tive que improvisar um WC, achei que estava prestes a explodir. Valia mais perder ali 1 minutinho do que comprometer a minha prova mais adiante. E foi a melhor decisão. Estava pronta para encarar a dita.

 

Os primeiros 8km são super tranquilos, quase sempre a perder elevação. A partir daqui começam a avistar-se as ditas subidas que eu fui encarando uma a uma com a cabeça levantada a tentar perceber até onde se via gente e onde deixava de se ver, o que significava que o terreno ali começaria a perder elevação. Não demorei a perceber que estava a fazer o tipo de prova que mais gosto, onde é inevitável a variação de ritmo, em virtude da sucessão contínua de topos: sobe, desce, sobe, desce.

 

Parte pernas? Não há ali nenhuma subida assim! Ao ponto de arder o músculo? Um ou dois momentos. Lembro-me do km 16, porque estava a sentir a subida e lembro-me das subidas nos tuneis já dentro de Atenas. Todas as outras subidas, que são realmente muitas, vão sendo compensadas pelas descidas que lhes seguem.

 

Depois há as pessoas no percurso, à passagem pelas várias localidades, há mesmo muita gente a dar ânimo, é impossível passar indiferente e não sorrir. Muitas distribuem ramos de oliveira que os corredores aceitam (eu aceitei um para rapidamente perceber que aquilo não dá jeito nenhum a transporta e deixei-o pelo caminho).

 

Há todo um cenário arrepiante de uma terra que o fogo engoliu… havia a determinada altura do percurso um pórtico insuflável com um apelo aos corredores para colocarem o buff verde e darem cor à zona ardida por onde iriam passar e muita gente vestida de preto, num gesto de luto por aquela devastação que aplaudia e agradecia o gesto dos corredores.

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E depois há os milhares de corredores que vamos observando e analisando pelo caminho e que servem de motivo de abstração por largos quilómetros. A forma como respiram, o tipo de equipamento ou acessórios que levam, a forma peculiar da passada. É caso para dizer mesmo: só visto!

 

Já com mais de metade do percurso feito comecei a recear o “homem da marreta”. Fui sempre comendo, bebendo, deitando água pela cabeça, mas estava convencida que a qualquer momento poderia sentir aquele cansaço, o desânimo… que nunca chegou!

 

Fui observando as dezenas de postos de socorro pelo caminho, pensei várias vezes em parar e pedir spray para os gémeos que a determinada altura começaram a acusar os km, mas só via gente a ser massajada com pomada e eu tinha as perneiras. O tempo que ia perder a baixá-las, massajar, voltar a subi-las… resolvi arriscar e seguir sem paragens.

 

Eis que chega o famoso km 31! E a partir daí a prova começa a perder elevação. Que sonho! A descer, corria soltinha como nunca pensei que fosse possível.

 

Ao km 32 liguei ao meu marido: achou que tinha desistido! Não, só queria saber onde é que a claque estava posicionada, queria receber a bandeira do meu grupo de corrida para entrar com ela no Estádio de Atenas. Respondeu-me “Estás bem? Então corre que eu trato do resto.”

 

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Não dá para vos descrever a sensação de entrar na cidade de Atenas… é verdade que ainda faltavam uns bons km para terminar a prova, mas naquele caso passam a ser “só” os km que faltam. É a reta final, com casas, com gente, muita gente e muito apoio nas ruas. Também é onde se começam a ver os casos graves de gente que se arrasta, que cambaleia, gente deitada a ser socorrida, é um misto de sensações. Depois enviaram-nos umas estatísticas onde fiquei a saber que nos últimos 5km fui ultrapassada por 306 pessoas, mas passei… 1022!

 

Não conseguia parar de sorrir. Entrei no meu modo maluquinha e comecei a falar sozinha, estupefacta a olhar para o relógio, o tempo que tinha em prova e o ritmo a que ainda conseguia correr “Isto é espetaculaaaaaaaaaar Tânia Patrícia”.

 

Nos últimos quilómetros da prova lá estava a claque tuga distribuída, uns a gritar, outros a tirar fotos e o marido com a bandeira em punho ainda correu uns metros ao meu lado para saber se eu estava bem. E pronto, daí para a frente meus amigos… que sorriso que eu levava! Acho que animei uma parte da assistência nesses quilómetros que me olhavam e retribuiam o meu sorriso com palmas mais fortes e as mesmas palavras gregas que incentivo que fui ouvindo ao longo do caminho. Foi bruuuuuuuu-taaaaaaaaaaal.

 

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Entrar no Estádio Panatenaico, cruzar a meta e perceber que tinha acabado de fazer aquilo em 4h09 minutos… queria EXPLODIR de alegria.

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A Ana Margarida também terminou a prova dela muito satisfeita! Mais uma pessoa que bateu o recorde pessoal na maratona de Atenas, com a marca de sub 4 horas. Portanto quando me dizem que esta não é a prova para bater recordes pessoais, só tenho a dizer que pode ser. Vai depender do nosso percurso e naturalmente do tipo de corredor que somos, do tipo de provas em que nos damos melhor. Para quem está habituado a correr sempre em plano direito, aqui é capaz de se dar mal. Mas não somos todos iguais, não é verdade?

 

Eu adorei a experiência, o tipo de prova. Achei desafiante naturalmente, mas longe de ser um bicho de sete cabeças. É uma Maratona! São 42km a picar alcatrão. Para mim, com a vantagem de poder variar o ritmo em função do ganho ou perda de elevação. O percurso não tem uma beleza particular. Mas o facto de nos permitir estar nos estádios de Maratona e no Panatenaico de Atenas, a proximidade com a chama Olímpica, o número absurdo de participantes, o facto de aqui neste mesmo percurso estar a origem da prova e outras particularidades fazem com que valha muito a pena vir fazê-la.

 

Estatistica Maratona Atenas.PNG

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